domingo, 4 de setembro de 2016

O JANTAR E A NÉVOA



          Boa noite, onde vamos colocar a conversa em dia, meu caro? Ela sugeriu um restaurante a quatro quadras de sua casa. Foi assim, depois desse convite para jantar, que ele, de namoro recém-desfeito, foi rever uma velha amiga, que morara no exterior por três anos, mas voltara ao país havia uma semana. Seria um modo de unir o útil ao agradável. Esquecer um pouco do passado, se distrair, mudar o foco de seus pensamentos. Logo ao encontrá-la, porém, ele sentiu algo estranho, a velha amiga lembrou por uma fração de segundo um pouco da ex, mas ele tratou de disfarçar essa sensação. Vestida toda de branco e com transparências, elegante, ela exibia cabelos finos com mechas loiras, e estava enxuta de caminhadas quase diárias e alguma academia aos 46 anos, e mãe de uma filha de 18. Já à mesa, o papo sobre o momento de suas vidas só era interrompido por garfadas em camarões crocantes e levemente picantes com risoto úmido no ponto certo, em ambiente à meia-luz, com velas. Parecia que ia dar certo.

           Ele falava mais do que ela, que perguntava perguntava... e ele dizia, pausadamente, sobre os novos sonhos e projetos profissionais. Ele disparara a falar não com medo do silêncio, de dar "um branco", a sensação de vazio ou de falta de assunto que por vezes acontece hoje, principalmente nos "encontros às cegas", comuns no mundo virtual. Ali, eles já se conheciam, não havia motivo para qualquer desajuste ou saia-justa. Não havia espaço para o costumeiro o "vi, não gostei, dispensei" ou ainda o "fast-food" das aventuras nas redes de relacionamento. Ele não parava de falar. E a amiga mostrava-se mais interessada numa solução de continuidade do que o próprio "tagarela". Ela escutava com atenção suas palavras, seus sentimentos. Mas, desde o início, aquele estranhamento -- o flash da ex-namorada -- havia dado tom no jantar.
   
         De repente, assim do nada, o desinteresse tomou conta do ar. Rapidamente, então, ele pediu ao garçom para fechar a conta. Ela tentou esboçar uma reação, retomando a conversa, mas já era tarde. Para ele, tudo o que dissesse só pioraria as coisas. Qualquer palavra "errada" acentuaria as diferenças. Não era a primeira vez que isso ocorria com aquele homem. Ele sabia, seria como tivesse vergonha de estar ali. De uma hora para outra, ele olhou para o outro lado da mesa e já não havia ninguém. Só viu o vestido branco da amiga ser aos poucos engolfado por uma névoa igualmente branca, até ela simplesmente desaparecer. [No passado, quando isso ocorria, em vez de uma bruma surgir, um castelo de areia se esfarelava diante dele e tudo perdia o sentido]. Foi aí, pelo olhar distante dele, que a amiga [ou ex-amiga?] sentiu que a noite estava perdida. Ele lamentou consigo mesmo e pensou: "Não estou pronto, não estou curado, ou não é ela". Ou as três coisas juntas.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

AQUELE ABRAÇO


 
              Definitivamente, não há nada igual a um abraço. O abraço apertado de um filho provoca sensações únicas, além da certeza de que um amor inigualável e incondicional está ali. Nada como o abraço fraterno de um pai, de uma mãe, de um irmão. Abraçar é como lavar a alma. Abraçar é receber sem medo, de peito aberto. Abraçar é sentir a presença, é produzir mais calor. Abraçar é aceitar, é um reconhecimento. Mas há outros tipos de abraços, de amizade, solidariedade, união. Muitas vezes é um sinal de confiança ou de agradecimento. Há momentos também em que abraçar é um jeito de explodir... de alegria. Quantas vezes abracei estranhos, homens e mulheres, em um estádio na euforia de um gol, no instante de partilhar a vitória do que quer que seja. Também é uma emoção única. Existe ainda aquele abraço de despedida, às vezes mais distante [com ou sem lágrimas] e cheio de formalidades: esse é como dançar juntinho sem se tocar, como andar na rua sem dar as mãos.
              Mas ele anda mesmo é sentindo falta "daquele" abraço. Não é qualquer abraço: é aquele apertado, apaixonado, esparramado na cama ou de pé contra a parede -- que ela lhe dava e ele se derretia. Será que ela já esqueceu o jeito de abraçá-lo? Ela ainda se lembra do primeiro abraço, ambos um pouco acanhados antes do primeiro beijo? Ele sente saudades daqueles dias na Serra da Mantiqueira. "Espere aí, me abrace de novo, sem medo, com força!", sonha. Era como se o corpo dele fosse uma peça inteira de "lego" do dela: macho-fêmea. Onde estará ela agora? Será que ela ainda pensa nele? [ele sabe que não, seja pelo que for][ele sabe que sim, mas de modo diferente]. Será que, como ele, anda abraçando travesseiros para aliviar a sua ausência? Onde foi que se perderam? Ah! Que difícil tem sido a tentativa de apagá-la da memória: um pouquinho que fosse, já seria um alívio para esse sofrimento. Ah! Que vontade ele ainda tem de dar um longo abraço silencioso, aquele sem palavras. E deixar que o laço dos braços e toque dos umbigos falem por si. Simplesmente um abraço, e pronto. E ver o que acontece. Quem sabe a magia volta, imagina.
            Bem que ele queria que esse abraço redentor fosse à beira-mar. "Nós nunca fomos à praia juntos", diz em voz alta para si mesmo. Ficou essa lacuna. E ele adora praia. Será que algum dia ainda será possível? "Será que nunca veremos juntos o horizonte, da areia?", continua. Ele sabe que não dá mais tempo. Nem se um dia dará. Ela se foi, e mandou "aquele abraço" [não o sonhado por ele], como se estivesse partindo para um auto-exílio, cumprindo seu suposto destino. Ele ficou, e só pôde dizer... boa viagem!

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O VIL METAL


            As moedas são frias, pequenas, de baixo valor unitário, mas poderosas -- como um espelho côncavo que concentra a luz e revela com clareza pendores da alma humana, alguns deles inconfessáveis. As moedas são como um falso vulcão que jorra as lavas da realidade sobre as pessoas. As moedas são cruéis: elas têm a capacidade de humilhar, de jogar na sarjeta a autoestima de quem está sem um tostão no bolso ou apenas faltando uma pratinha para pegar a condução. Você já pediu uma moedinha na rua? Se tiver coragem, peça e veja o que acontece. Conte quantos "nãos" irá ouvir, quantos olhares estranhos irão feri-lo. Se for jovem e aparentemente saudável, então, não estranhe um "sai pra lá, vagabundo!". Se for idoso ou maltrapilho, enfim...

            Bem cedo, na adolescência, por volta dos 14 anos de idade, senti na própria pele essa terrível sensação de "inexistência", ao voltar de um show de música no centro da cidade. No ponto do ônibus, percebi a falta de 30 centavos para completar a passagem. Demorei um bom tempo para tomar a decisão de apelar a alguém. Não por orgulho, mas justamente por medo das reações. Sim, é difícil, "vergonhoso", se aproximar para pedir uma  "esmola" [putz, por que comprei aquele saco de pipoca?]. Então, vencido o "dilema do vexame", eu me dirigi a um senhor bem vestido, e dei-lhe uma ligeira explicação sobre minha necessidade. Ele me olhou de alto a baixo, não pareceu acreditar na minha história e sumariamente me disse: "Não tenho!". Voltei cabisbaixo para a mureta. Mas percebi que ele me observava à distância, enquanto eu revirava de novo os bolsos da calça. Falava baixinho comigo mesmo, resmungava, reclamava com os deuses e alguns minutos se passaram. Eu já calculava quanto tempo levaria para chegar em casa a pé quando, de repente, o homem apareceu diante de mim com as moedas que faltavam. Agradeci até a última geração do sujeito, saí rindo e pulei dentro de um ônibus. 

            Outro dia, uma amiga contou, pela internet, um episódio que testemunhou na fila do bilhete do metrô. Uma moça deixava qualquer pessoa passar à sua frente, enquanto caçava moedas na bolsa. O tempo passava e ela permanecia ali fuçando. Então, ela se aproximou e perguntou se precisava de dinheiro para inteirar a tarifa. Envergonhada, ela disse: 20 centavos. Recebeu uma moeda de 25 e, com os olhos molhados, agradeceu enquanto tentava devolver os 5 centavos "de troco". Cena terrível. 

           Embora incomum, as moedas podem ter o lado caloroso. Por exemplo, um incidente dentro de uma padaria mostrou as duas faces de uma mesma moeda: levando um porta-níquel para facilitar o troco, uma amiga tomou um esbarrão na fila do pão. Sequer ouviu um pedido de desculpas e, pior, viu dezenas de moedas se espalharem pelo chão. Enquanto a moça que causou o estrago seguia seu trajeto indiferente [negando o ditado que diz que a boa educação é moeda de ouro em qualquer lugar], um atendente saiu ligeiro detrás do balcão e, ajoelhado, ajudou minha amiga a recolhê-las: "Não se pode desperdiçar. Minha mãe juntava todas em um pratinho e sempre que a gente estava em apuros tinha o pratinho em cima da geladeira pra nos salvar", revelou o gentil funcionário. 

         Dependendo do uso, as moedas podem ainda significar algo mais pesado no dia-a-dia: quem não se lembra da chuva de moedas que caiu sobre os jogadores da seleção peruana de futebol ao chegarem no aeroporto de Lima, após a estranha goleada sofrida contra a Argentina na Copa do Mundo de 1978? A acusação é de que o jogo tinha sido vendido -- o que rende até hoje discussões. Eu não tenho a menor dúvida de que a ditadura militar argentina precisava daquele "circo".

        Já a palavra "moeda", do latim moneta, deusa da mitologia romana, também ganha novos sentidos quando deixa de ser substantivo e passa a ser utilizada como adjetivo. A expressão "vou pagar na mesma moeda" é dita geralmente´por quem é bem recebido em determinado lugar e espera ser visitado por seu bom anfitrião em breve -- quando então lhe será dado tratamento semelhante ou melhor. Alguém [não me recordo quem, neste momento] já afirmou que o tempo é a moeda da vida, a única que nós temos e que só nós devemos determinar como ela será gasta. Ou seja, fique atento para não permitir que outras pessoas a gastem por você. Curiosamente, a palavra moeda [o vil metal] já foi usada na literatura para dar significado a sentimentos: "O amor é a única paixão que se paga com uma moeda que ela mesma fabrica"', segundo Stendhal, famoso escritor francês do século 19.

        Eu ainda acho que o escritor espanhol Francisco de Quevedo acertou ao comparar palavras a moedas: "Uma pode valer por muitas e muitas não valer por uma!"

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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O MOTORISTA E O ESTUDANTE

   
     Manhã fria de inverno, daquelas que sai "fumacinha" da boca. Era bem cedo, por volta  das 7h, e ele estava a caminho da faculdade de sociologia [sim, sonhou de "sleeping bag", diria quem o visse naqueles tempos cabeludo e contestador em plena ditadura militar]. Descera do ônibus no Vale do Anhangabaú rumo à escola e, como sempre, parou na mesma banca para ler as chamadas dos jornais pendurados, abertos como num varal para atrair leitores. Naquele dia, chamava-lhe a atenção um diário popular que, em letras garrafais, trazia de manchete um crime na cidade. Mais um entre tantos tão iguais, que ele, já acostumado, nem dava bola. Mas, de repente, estancou perplexo.

     Meses antes, caminhando pelo mesmo Vale, mas na volta para casa, em vez de estancar, havia acelerado o passo ao ouvir assobios -- daqueles que as mulheres não suportam [ou algumas gostam, sabe-se lá, tem gosto para tudo] -- seguido de "ei, psiu, psiu, psiu, você aí!". Os assobios e a abordagem o deixaram tão constrangido como uma mulher que ouve "gostooosa!" depois de um "fiuu fiuuuuu!" Naquele tempo, meados dos anos 1970, era comum essa atitude, grosseira, vinda principalmente dos canteiros de obras. São Paulo explodia em prédios e não faltavam canteiros cheios de operários trabalhando. Havia quem dissesse até que algumas mulheres gostavam de passar perto de edifícios em construção para aumentar a auto-estima [ele achava, isto sim, que era mais para uma piada de mau gosto]. Seguiu sua marcha adiante sem olhar para trás, fingindo que não era com ele. Afinal, se virasse ia ter que brigar, discutir, imaginava. Adolescente, estava muito desconfortável, quando alguém gritou bem alto o seu nome. Aí parou...

      Olhou para trás e viu um rosto conhecido rindo, gargalhando. Começou a rir também, aliviado. Sim, era Francisco, simpático motorista nordestino que havia trabalhado na sua casa, levando a mãe do rapaz para cima e para baixo. Naquele tempo, a profissão de motorista particular era comum na cidade, principalmente nos bairros de classe média e nas famílias com muitos filhos. Alguns eram contratados por empresas e cedidos às famílias de seus diretores. Francisco começou a lembrar, saudoso, daqueles dias. Fez perguntas sobre a vida do rapaz, de seus irmãos e da "patroa" etc etc. Ele admirava a mãe do rapaz, principalmente depois que teve a carta de motorista apreendida e a viu enfrentar um guarda de trânsito. Francisco discutira feio com o policial, após estacionar o carro perto de uma padaria. O guarda reteve o documento, por desacato. Irritada com o impasse, a "patroa" sentou-se ao volante e disse, decidida: "Senta aí, Francisco, e vamos embora!" O guarda reagiu e exigiu a sua carteira de habilitação. A "patroa" só mostrava o documento à distância e cobrava a devolução da licença de Francisco, que sorria por dentro. Nenhum dos dois lembrou com detalhes como se deu o desfecho mas, ânimos esfriados, o guarda devolveu-lhe a carta, não sem, claro, aplicar-lhe a multa.

       Francisco agora estava "na praça" havia três anos, dirigindo um táxi de frota. E a vida estava bem mais difícil, trabalhando dobrado, de dia e de noite, para pagar a empresa dona do veículo e ganhar o pão. Perguntado se não tinha de medo de assalto, brincou: "Tenho uma peixeira no carro". Havia se separado da mulher, que não suportara mais seus pileques [quantas vezes, a mãe do rapaz, mandou-o de volta para casa logo de manhã, quando aparecia para trabalhar já meio cambaleando, meio falando mole]. Francisco era atencioso, dirigia bem, divertido e respeitoso, mas era alcoólatra. Naquele encontro inesperado, porém, contou-lhe que depois do divórcio não bebera mais. Foi uma conversa rápida, não mais que uns cinco minutos, mas o tempo suficiente para rirem um pouco da vida e desejar mútua boa sorte. Eram duas da tarde e o rapaz voltou feliz para casa com a novidade: Francisco virara taxista.

      Naquela manhã cinzenta, porém, alguns meses após aquele reencontro, a cada passo que o jovem dava em direção à banca a foto crescia. O bigode, os traços... Ele o reconheceu. E gelou, um arrepio percorreu sua espinha ao ver o nome de Francisco no texto da manchete principal do jornal que dizia: "Taxista morto a tiros por assaltantes". Pavio curto, Francisco reagira ao assalto e dois ladrões o mataram para levar uns trocados na madrugada. O estudante tremeu vendo a foto 3x4, daquelas de carteira de identidade, impressa do tamanho de um pôster na capa daquele diário. Uma tristeza aguda tomou conta do estudante. Francisco no papel e ele ali paralisado, ouvindo ao longe o barulho das buzinas e vendo tão perto pedestres seguindo seu rumo, indiferentes, ao passar pela banca.

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

PROCURO A SUA VOZ


        Nunca imaginei que um dia estaria procurando a sua voz. Há seis meses você não fala comigo. E, o pior, confesso, eu já me esqueci do som dela. E isso é algo que me tortura. Como em tão pouco tempo não consigo lembrar-me mais dela? Tento buscá-la através de fatos importantes de nossas vidas, mas nem assim resgato o som de sua voz. Recordo-me de frases completas, de pensamentos, mas não do som, nem o tom. Se tiver me ouvindo [eu sei que está], vou revelar, então, um segredo meio antigo: certa vez, mantive durante alguns meses uma gravação deixada por você na caixa-postal do meu celular, para poder matar a saudade quando quisesse. Mas um gaiato levou meu celular e com ele a sua voz. Hoje, após dias e dias a fio sem ouvi-la, penso como gostaria de escutá-la mais uma vez, mesmo que por apenas segundos, pelo menos um aceno de amor: "Oi, como você está, filho?", seguido de um beijo carinhoso no rosto, ou na testa. Como seria confortante.

       Quantas coisas boas você me disse, quantos pitos na infância, quantos toques na adolescência ["acho que sua vida anda um pouco desorganizada", foi o bilhete sutil que deixou na cabeceira da cama, quando eu vivia indo a festas e dormindo tarde todos os dias] e quantos conselhos na maturidade. Quantas risadas gostosas nós demos [lembra-se quando, durante uma viagem de carro a Búzios, você me acordou, à noite, em Itaboraí, para mostrar a antena parabólica gigante, toda branca, que fazia transmissões via satélite, uma novidade no início dos anos 1970? Você apontava pra antena de um lado, eu olhava para outro e dizia "estou vendo, estou vendo, que linda", para gargalhada geral, sua e de meus irmãos? Você lembra da chicotada que deu em meu rosto, sem querer, tentando acelerar o passo de um pangaré que puxava a charrete em Cambuquira? Eu chorei e você riu, meio sem graça, enquanto pedia desculpas. Hoje, dou risada sozinho desses episódios. Consigo visualizar seu sorriso mas, é terrível, não lembro mais de sua voz. Olha, moramos tanto tempo longe um do outro depois que cresci, você mudou-se para outra cidade, coisas da vida, e eu fui buscar meus sonhos, cometer meus erros e tentar encontrar o meu lugar no mundo.

       Agora, vendo-o deitado nesse leito de hospital há meses, abrindo os olhos ao chamá-lo, mas sem dizer uma palavra, qualquer que fosse, fico imaginando-o como um pássaro preso na gaiola, sozinho, triste e sem cantar. Eu sei que, rigoroso como é, não diria, mas eu adoraria que [para demonstrar sua irritação com o estado das coisas] você gritasse um palavrão. Que tal um puta que pariu!!!!!? Ou dar um basta com um caralho! Chega! Às favas com o que dizem os médicos... Lá no começo dessa tragédia, eu o vi se mexer como quem quisesse dizer algo, mas parece ter se cansado, selado dentro de si mesmo, frustrado com a condição de incomunicabilidade.Talvez eu esteja vendo demais, talvez porque o tombo que o imobilizou e o emudeceu também tenha me aberto os olhos e me roubado as palavras. O que dizer? Contar o meu dia, contar histórias, ligar a TV e assim encobrir esse silêncio tão doído. Perdão pai, se não estou te entendendo! A vontade é de gritar... mesmo que ninguém me escute, mesmo que eu pareça um louco.

      A vida, muitas vezes, vai emudecendo as pessoas. Tirando-lhes a vontade até de falar. Uma tristeza, um desapontamento, uma desatenção, um desenlace amoroso que não se espera... Às vezes o sentimento é de que a vida é uma misteriosa caixa que, aberta por um desavisado, espalhou pelo mundo todo o tipo de mal e desgraça. E pior, após o susto, fechada rapidamente, aprisionou logo seu único bem: a esperança. Não me entenda mal. Não desisti, mas a cada dia que passa sem que você diga uma única palavra, penso, quem me dera ter poderes para tirá-lo dessa clausura: o seu silêncio me silencia, é morte em vida.

 Que saudade de sua voz, pai!


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domingo, 28 de agosto de 2016

AMOR, ESTRANHO AMOR


Não se sabe quando, mas algum dia depois de uma satisfação ligeira vem o gosto azedo e corrosivo do arrependimento, da sensação de incompletude que a coisa passageira parece dar ao desavisado. Quantas mentiras foram ditas, quantas falsos juramentos foram feitos. Quantas palavras ao vento. Calma, não se aborreça. Não se interesse por isso. Afinal. a quem quis enganar? Só enganou a si mesma. Apressada, fez a troca dominada pelo impulso, e a noitada não deu em nada. Não foi nada daquilo, bateu na porta errada. E, se não foi desta vez, quando será o novo descarte? De repente, você está diante de perguntas mais pesadas sobre o sentido daquilo tudo. E o vazio já terá voltado sorrateiramente para dentro de casa, outra vez. Qual é afinal a direção certa, sem escalas, da felicidade e do fim da monotonia? Quem sabe o caminho das pedras? Ou só há pedras no caminho? E atiramos pedras para todos os lados e -- só para tirá-las do nosso sendeiro -- é aquele selvagem salve-se quem puder?

Aquele rapaz já havia sido preterido. Quem nunca foi? Ele lembra agora o que ouvira de uma ex-namorada adolescente que reencontrara numa padaria já mulher: "Não sabia que havia te magoado tanto!", disparou ela. Foram três longos anos sem receber dele um pio, um sinalzinho de vida. Ela, então, pediu desculpas, naquele reencontro por acaso com aquele homem [que a perdoara, mas para sobreviver precisara sumir para estancar o sofrimento]. Fora uma decisão dele, difícil de seguir à risca. Aos olhos dela, naquele momento, então, ele lhe parecia ainda mais bonito do que no passado, diferente. Como não notei isso antes?, pensou ela: ali percebera aquilo que até havia se dado conta antes, mas fingira não entender, repetindo à náusea a lenga-lenga de sempre "eram momentos diferentes". [Que gosto temos pelo auto-engano, não é?] Que ele, sim, a amara como nenhum outro, que desperdiçara uma chance. Por que é sempre assim? A gente só se dá conta depois? [Mas aquele homem ainda via beleza naquela mulher, claro que ela não era mais a mesma, mas ainda sentia atração por sua magreza sinuosa, seu olhar esverdeado e aquela boca... Claro eram tantas e boas lembranças, até mesmo do dia em deixaram uma festa e meio embriagados foram expulsos de uma delegacia, "saiam daqui!", onde pediam "queremos nos casar, o delegado está?"]

De lá para cá, quantas promessas não foram cumpridas. Muitas, poucas, grandes, pequenas? Tanto faz, estava feito. Novos momentos sublimes podiam vir? Sim, e vieram, juntos até o dia em que um câncer fulminante a matou em menos de três meses. Ele chorou muito. ela havia sido o seu grande amor da juventude. A segunda chance fora boa, mas curta. A vida é tão simples. Ele queria mais... Morreu do coração, dormindo, dois meses depois dela. Deixaram filhos, mas de outros casamentos.

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TÃO PERTO, TÃO LONGE


Ele sente a sua presença. Apesar do silêncio, ele sabe que ela está por perto. Sinal de que ainda está conectado, de coração e mente. Já ela... tão perto e tão longe. Seu bobo, ainda esperava uma visita surpresa? Não, como ele não sabia o que a movia tão distante de sua própria casa numa noite de inverno? Mesmo que seja pura imaginação ou fantasia ruim, não importa, esqueceu-se do que sugerira, com uma frase solta, com a separação inexplicada? Perto, mas não mais com ele. Que lamenta. De que isso adianta? Deixa o tempo passar, dizem "que tudo passa". Passa? E a ferida lá aberta. Quem sabe o tempo não irá amenizá-la -- isso acontece com poucos, é verdade, mas ocorre [há quem perdoe, mas não esqueça jamais!]. E, por que não?, há também quem a esqueça! No teste de múltipla escolha da vida, as três respostas são possíveis e estão certas. Deixe, portanto, de pensar onde estará, nem no que estará fazendo. Esfria-te neste momento, o coração não aguenta, assuma que perdeu. Chega! Uma hora ele, o músculo da vida, volta a esquentar e, nunca se sabe, o que era passado vira futuro de novo, e o que era futuro dela se transforma em pretérito imperfeito.

De nada adianta ter raiva. Fazer figa, torcer contra. Encher a cara. Chorar no bar com os amigos e as amigas, reclamar com o garçom do boteco predileto. Perambular pela noite com um animal faminto. Não há crianças na pista de dança, ainda mais com essa idade e a essa hora da noite. Quando alguém faz muita economia com as palavras já era, o outro já virou miragem, mesmo quando trocado por outra miragem pior, às vezes muito pior. Não importa a circunstância, se já estava engatilhada ou não. Em algum momento houve outras tentações, mesmo que recheadas de ilusionismo e falsas promessas. "Quando alguém diz que torce pela sua felicidade" é como aquele que afirma "a gente vai se falando": é melhor pôr a roupa de domingo, mudar de assunto ou ir dormir. Não rola, muito menos deita. Que pena? Que pena nada! Não vale a pena...  Ah, não tem sono? Trate de tomar um vinho, relaxar e rir. Agora não haverá mais cobranças "demasiadas". [E você até gostava de algumas, era sinal de que "o gostar" ainda estava ali]. Às vezes, quando não há compromisso, tudo fica mais fácil, até seu olhar vai mudar diante dela. Com todo o respeito, é claro. E o dela também. Sem grandes sonhos, mas também sem pesadelos. Quem sabe, até boa diversão seja possível...

Sozinho? Ok, pense assim, essa prestação não será paga mais em 12 meses, com juras [de amor]. Sem cobrança, a dívida acabou. Foi quitada ou suspensa antes do prazo. Claro, ela saberá na hora certa como identificar quem é quem diante da balança. E aquelas fotos todas espalhadas por vários arquivos do computador? Abra uma pasta única, jogue todas lá dentro. Só não as apague, seja porque você não desapega nunca, ou seja porque é você é daqueles que pensa, "nunca se sabe, até os mais experientes reabrem crediários antigos". Nunca se sabe.

De repente, você acorda assustado no meio da madrugada, um bocado suado, quase cai da cama e pensa... Putz, então tudo isso não passou de pensamentos vãos, horríveis? Foi mais uma "turbulência noturna"? Que bom! Vire de lado, ajeite a cabeça no travesseiro e volte a dormir, agora mais leve, porque amanhã está previsto um domingo de sol e calor!  E nem tudo está perdido.

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