terça-feira, 26 de abril de 2016

LIÇÃO SUECA, E UMA PERGUNTA CARIOCA

           
Estocolmo: prioridades cancelam evento para 2022
        Depois de apresentar sua candidatura em novembro de 2013, a cidade de Estocolmo, na Suécia, decidiu voltar atrás e não participar da disputa pela sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. O motivo? Segundo o jornal "Dagens Nyheter", a prefeitura concluiu --- após colocar no papel todos os gastos que o evento esportivo traria para a cidade -- que a conta para organizar os Jogos seria alta demais e um eventual prejuízo teria de ser coberto com dinheiro público. Talvez em outros países usar dinheiro do contribuinte para realizar grandes eventos esportivos não seja problema. Mas na Suécia é diferente. “Não posso recomendar à Assembleia Municipal que dê prioridade à realização de um evento olímpico, se temos outras necessidades na cidade, como a construção de mais moradias”, disse o prefeito Sten Nordin. O secretário municipal de Meio Ambiente de Estocolmo, Per Ankersjö, escreveu um artigo defendendo a decisão. "Os cidadãos que pagam impostos exigem de seus políticos mais do que previsões otimistas e boas intuições [sobre o orçamento]. Não é possível conciliar um projeto de sediar os Jogos com as prioridades em termos de habitação, desenvolvimento e previdência social", afirmou.
Rio: ciclovia superfaturada é destruída pelo mar
    
        Enquanto aqui o prefeitura do Rio de Janeiro deu várias alegações para explicar o inexplicável, antes da Olimpíada. Por que a promessa de despoluir a Baia de Guanabara e a Lagoa Rodrigo de Freitas não sairá do papel? Por que um trecho da ciclovia Ipanema-São Conrado foi erguido e arrancado dos pilares pelo mar, matando duas pessoas, justamente numa área conhecida por todos por ter fortes ondas [em dia de ressaca, elas se chocam com o costão com violência]? A ciclovia, superfaturada, custou R$ 45 milhões e seria "um legado olímpico". A pergunta que não quer calar: afinal: por que uma cidade precisa de um evento desse porte para fazer o que deve ser feito. O tal "legado" não seria uma mera obrigação dos administradores públicos, mesmo sem Olimpíada?  
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sábado, 30 de janeiro de 2016

O GUARDA-CHUVA



        Era a primeira vez que se viam frente a frente. E foi um desastre. Ela não gostava daquela comida francesa. O bistrô, escolhido por ele a dedo por considerar o lugar ideal para um jantar romântico, só servia pratos de caça. Constrangido, o rapaz tentava contornar a situação. Já havia pedido um bom vinho de mesa. Nada parecia engrenar, exceto o desejo de conhecer aquela mulher com quem conversara horas a fio pelo whatsapp, esse vício moderno, durante dias, ao estilo nunca te vi sempre te amei. Era tarde e o rapaz, vacilante, decidiu ficar ali, não tentar outro restaurante. Ele ainda encomendou uma torta de queijo, ao vê-la beber vinho tinto sem colocar na boca um pedaço sequer de pão. Embora o encontro tenha se sustentado por minutos de conversa divertida, aguda, estava resignado com o ''não-jantar". Já se dava como abatido pela mesa errada, pela escolha infeliz.
     
        Recém-solitários, os dois falavam sobre viver o momento, sem que isso significasse abandonar sonhos e desejos futuros. E como viviam isso, não só da boca pra fora, como acontece com muita gente que costuma alardear tal comportamento como qualidade adquirida ao longo da vida.  Até que a mulher pediu licença e se levantou para ir ao banheiro. O rapaz percebeu que não estava bem. Pediu a conta e pagou-a enquanto a moça tentava se recompor. Quando saiu do restaurante, abriu o guarda-chuva porque chovia, pouco. Mas chovia. Levou-a, preocupado, até o carro. No caminho de volta, tentou socorrê-la com drogas, até parou numa farmácia, mas o que resolveu mesmo foi meia lata de coca-cola com paçoca. De volta à sua casa, entristecido, pensou: amanhã é tempo de pedir desculpas, educadamente lamentar, colocar a roupa de domingo e esquecer. Mais uma noite de luto viria.

       No dia seguinte, ele campeão de fiascos das primeiras noites, como ele se definia após tantos e sucessivos fracassos no primeiro encontro, foi surpreendido. Ela dizia que queria vê-lo de novo pela sua autenticidade, pelo seu jeito meio destrambelhado de ser, que a mulher não sabia ser resultante de uma deficiência [ainda que naqueles dias quase invisível] e pelo guarda-chuva. Sim, [ela revelaria mais tarde] aquele objeto antigo e quase obsoleto que ele levara e que -- meio atrapalhado ao entregar o carro ao manobrista ao chegar-- abrira para proteger aquela mulher das poucas gotas de água que começavam a cair naquela noite de casal debutante. Se a primeira noite para aquele  homem havia deixado a sensação do sabor amargo de um cabo de guarda-chuva, o mesmo guarda-chuva guardava outro gosto para aquela moça alta -- e, aos olhos daquele homem, de uma beleza singular. O gesto de abrir e fechar o guarda-chuva, uma atitude espontânea e despercebida pelo rapaz, tinha tido o peso de uma sentença judicial, sem direito a apelação, para a moça. Sim, nada tinha dado certo, mas o uso do guarda-chuva, ainda que exagerado para o momento -- porque até o toró fôra só uma tenra ameaça -- ganhou um significado único para aquela mulher: o gesto de quem cuida.

      Daí seguiram-se novos encontros dos debutantes e seguidas noites ferozes, nascidas de um amor que foi se nutrindo e se expandido, pelas semelhanças e também pelas diferenças inúmeras, na contramão desses tempos de cólera, indelicadezas e descuidos ilimitados s/a.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O RESUMO DA ÓPERA - SEMPRE ÀS QUINTAS

UMA LEITURA SEMANAL DOS JORNAIS -  N12 -- 28.01.2016

POR GEORGE ALONSO


Em manchete a mentira do governo Geraldo Alckmin

Jornalismo zero e zero em matemática

        A “Folha” errou? Viral na rede, a informação de que a manchete da "Folha" escondeu a verdade sobre a taxa de homicídios no Estado de São Paulo. Pela metodologia da Secretaria de Segurança, uma chacina é considerada UMA morte nas estatísticas, mesmo que tenham sido assassinadas cinco, seis, sete, oito, dez pessoas. A taxa também não considera latrocínio (roubo seguido de morte) como homicídio. Como latrocínio e assassinato cometido por PM não são considerados “homicídios dolosos”, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes caiu para 8,73. Do contrário, subiria para 11,7 para cada 100 mil habitantes. Acima de 10, a taxa é considerada “epidêmica” pela ONU.

       Conclusão: bem torturados, os números podem dizer qualquer coisa!

       E mais: a UOL publicou como verdadeira uma piada sobre o motivo da falta de pasta de dente na Venezuela: os venezuelanos estariam escovando demais os dentes, três vezes ao dia. [não há dúvida sobre o caos econômico do país vizinho, mas copiar e usar como verdadeiro uma piada de um site daquele país... Sem comentários.]

Jogo de cena

      "Não posso continuar em um partido que tomou mais de R$ 300 milhões da Petrobras", afirmou o apresentador de TV José Luiz Datena, ao anunciar que vai sair do PP. A desistência, em meados janeiro, se deu um dia depois de o jornal "O Estado de S. Paulo" publicar reportagem que mostrou que a Procuradoria Geral da República estimou em R$ 358 milhões o total de propinas obtidas pelo PP, entre de 2006 e 2014, no esquema de assalto à Petrobras. Ele também lá não estava disposto a enfrentar Paulo Maluf em eventual prévia do partido para a disputa do cargo de prefeito paulistano. "Jamais disputaria uma prévia eleitoral com Maluf. Preferia uma disputa com Marcola", ironizou Datena [Marcos Herbas Camacho, chefão do PCC, facção do crime organizado].

      Puro jogo de cena: o PP sempre teve Maluf e sempre esteve acusado de se envolver em casos de corrupção... E Datena não sabia?  Ah, tá!

O troféu

Faixa abandonado no "protesto" contra a democracia

       Enquanto não pegarem Lula, não vão sossegar... Ele é o alvo. Dilma é apenas um pretexto. O objetivo é destruir o PT e se puder com a foto do ex-presidente, na capa de todos os jornais, algemado..A investigação da Operação Lava-Jato, notável esforço anticorrupção, pode servir para ferir de morte a democracia. Eu já vi esse filme... Ele se passou em 1964. O que faziam na última terça-feira na Marginal Pinheiros, na pista local entre as pontes Cidade Jardim e Eusébio Matoso (sentido Castello Branco), 14 pessoas [exatas 14] com uma gigante bandeira verde e amarela, em forma de faixa, paralisando o trânsito, durante quase todo o dia, com gritos contra Lula e Dilma. A PM do Alckmin não apareceu... Ah, se fossem estudantes! E ainda ontem havia uma lembrança do "protesto" no canteiro central. Uma faixa pendurada numa árvore [foto acima], com o seguinte dizer: "Comunismo, não!"  Não faltou, claro, pedir a volta dos militares ao poder.

Imprudência (?) e o direito à defesa

      O Ministério Público Federal afirmou na última segunda-feira (25), em audiência com o juiz Sergio Moro, que parte dos depoimentos prestados pelo lobista e delator Fernando Moura não foram gravados. O pedido para ter acesso a áudios e vídeos referentes a termos de delação premiada com informações cedidas pelo lobista foi feito pela defesa do ex-ministro José Dirceu. Após ouvir Moura dizer ao juiz Moro, na semana passada, que havia trechos nos termos de sua delação premiada que ele não falou no momento em que prestou o depoimento a Polícia Federal e a procuradores da Força Tarefa de Curitiba, o advogado Roberto Podval quis ter acesso ao material para "esclarecer o que foi dito".  O pedido não poderá ser atendido, segundo o despacho de Moro, já que o MPF disse não ter gravado os depoimentos solicitados pela defesa de Dirceu.  À "Folha", Podval afirmou que ainda não sabe qual medida tomará diante do fato de que os áudios não existem. Para os defensores, causou estranheza a ausência das gravações, já que o padrão da Lava-Jato é gravar os depoimentos dos delatores durante o processo de colaboração premiada.  O quadro esquemático abaixo foi publicado pela "Folha”:


NÃO É BEM ASSIM...
O que o delator Fernando Moura disse à PF e desdisse, agora, ao juiz Sergio Moro

ANTES
DEPOIS
A FUGAEm 2005, foi orientado pelo então ministro José Dirceu a sair do Brasil e ficar no exterior “até a poeira baixar”“Depois até que assinei [o depoimento] que eu fui ver, diz que o Zé Dirceu me orientou a isso. Não foi esse o caso.”
AJUDA DO AMIGO MINISTRODirceu o orientou a arrumar uma empresa e prometeu ajudá-lo em seus negócios. Foi quando indicou ao governo do PT, a pedido do dono da Etesco, o nome de Renato Duque para diretor da Petrobras“Não sei se a última palavra na indicação de Duque foi do José Dirceu”
A ETESCOMencionou arranjo entre a Etesco e Duque para que a empresa fechasse contratos milionários com a PetrobrasDisse não saber se a Etesco foi ajudada por Duque e afirmou: “Devem ter preenchido um pouquinho mais do que eu tinha falado. Mas se eu falei, eu concordo”
PADRINHO DE DUQUEDisse que Duque e os donos da Etesco “ficaram milionários” com os negócios na Petrobras, e que a Etesco também lucrava ao repassar contratos a outras empresasIndagado a respeito pelo juiz Moro, respondeu: “O Licínio [Machado, dono da empresa] já era [milionário], sempre foi”

OUTROS EPISÓDIOS
Não é a primeira vez que um delator muda sua versão

PAULO ROBERTO COSTA, ex-diretor da Petrobras
> Desvios na estatal: Primeiro, disse que a propina era obtida via Petrobras, em contratos superfaturados. Depois, que saía da margem  de lucro das empresas

> Renan Calheiros e Romero Jucá: Disse que os senadores recebiam propina, mas depois só citou reuniões com os políticos

ALBERTO YOUSSEF, doleiro
Aécio Neves: Disse que o tucano ganhou propina em Furnas no governo FHC. Depois, afirmou que só tinha ouvido falar que o senador tinha influência lá

NESTOR CERVERÓ, ex-diretor da Petrobras
Lula: Apontou propina para a campanha do ex-presidente, vinda da refinaria de Pasadena (EUA). A menção sumiu em seu termo de delação

AUGUSTO MENDONÇA, empresário
Renato Duque: Primeiro, disse que o ex-diretor recebeu US$ 6 mi. Depois, afirmou que ele não ficou com todo o dinheiro






quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

OLIMPÍADA NO RIO: GLÓRIA OU PESADELO?

Rio de Janeiro: "Bonita por natureza", mas sem despoluir a Baía de Guanabara para os Jogos Olímpicos de 2016

            O fantasma dos prejuízos estratosféricos ronda a Olimpíada do Rio de Janeiro 2016 a poucos meses do início da maior competição esportiva do planeta – cada vez mais complexa devido ao gigantismo do número de participantes e, por isso, cada vez mais cara. Sem dúvida será o maior evento a ser realizado no Brasil, em agosto próximo, justamente em meio a grave crise econômica, com a credibilidade do país em xeque. Canadenses e gregos sabem exatamente o que isso significa.
 
           Montreal, cidade atualmente com 1,5 milhão de habitantes, precisou de 30 anos para pagar a conta dos Jogos Olímpicos de 1976. À época, com apenas 1 milhão de moradores, o desejo de reconquistar o status de metrópole mais importante do Canadá – prestígio perdido para Toronto nos últimos 40 anos -- levou Montreal à disputa pela organização de uma Olimpíada, derrotando cidades poderosas como Los Angeles (EUA) e Moscou (URSS). Em tempo de Guerra Fria, a candidatura da cidade canadense caiu como uma luva para o Comitê Olímpico Internacional (COI). Serviria para aliviar tensões, momentaneamente, e fazer [como de fato fez] o mundo esquecer os Jogos de Munique (1972), marcado pela violência política e pelo terrorismo – o grupo palestino Setembro Negro seqüestrou e matou 11 atletas israelenses dentro da vila olímpica alemã. Mas o fracasso financeiro sem precedentes na história obrigou, no entanto, a prefeitura de Montreal a cobrar dos moradores, por meio de impostos, a dívida de US$ 2,5 bilhões (o equivalente, no câmbio atual, a R$ 10 bilhões), só quitada totalmente em 2008.
       
          Quatro anos antes, em 2004, os Jogos Olímpicos de Atenas, segundo especialistas, serviram para ajudar a corroer economia grega, hoje em colapso. O governo grego investiu então o equivalente hoje a R$ 44 bilhões para sediar os Jogos Olímpicos -- onde eles surgiram e foram realizados pela primeira vez na Era Moderna em 1896. Agora instalações milionárias estão abandonadas e inúteis, como, por exemplo, o parque aquático. Economistas europeus concordam que essa gastança desenfreada contribuiu de forma significativa para a catástrofe econômica que abala a Grécia na atualidade.


         Vale a pena ser a sede uma Olimpíada?  Olhando friamente o histórico de outras cidades do mundo, mais desenvolvidas e ricas, e que realizaram Olimpíadas, a resposta seria “não”. É uma péssima aposta ao que tudo indica. Por isso, a população brasileira deveria estar mesmo preocupada com a realização, embora agora inevitável, dos Jogos no Rio. Com receio de não conseguir cidades interessadas no megaevento, não é à toa que o Comitê Olímpico Internacional (COI) tem usado com cada vez mais ênfase o argumento do “bom legado”, em infra-estrutura geral e instalações esportivas. Para as populações das cidades-sedes, porém, nem sempre isso tem sido verdade. O custo sempre elevado de uma Olimpíada tem levado cidades como Boston e até duas ex-sedes olímpicas, Roma e Estocolmo, a desistir de candidaturas, por entenderem que há outras prioridades locais.
 
         No caso brasileiro, mais recente, aparecem os Jogos Pan-Americanos de 2007, ocorridos com certa tranqüilidade também no Rio, o que abriu as portas para a candidatura olímpica vitoriosa. Algumas das instalações esportivas daquele evento, porém, sequer servirão para a Olimpíada e o custo final do Pan, em torno de R$ 5 bilhões, ficou cinco vezes superior ao previsto. Basta lembrar ainda a Copa do Mundo de 2014, a segunda competição do gênero promovida pelo Brasil, que -- embora tenha servido de forma inegável para a modernização dos estádios -- deixou muito mais do que o “vexame do Mineirão” como legado. Foram investidos cerca de R$ 27 bilhões, segundo o balanço oficial apresentado pelo governo federal após a Copa, e ficaram pelo menos três “elefantes brancos”, inviáveis economicamente: as arenas de Manaus e Cuiabá, onde o futebol mal subsiste, e o estádio nacional de Brasília. Os três estádios só enchem quando times populares de São Paulo e Rio jogam pelo Campeonato Brasileiro ou em amistosos e partidas oficiais da seleção brasileira – ou ainda em eventuais espetáculos musicais.

          Na Olimpíada do Rio, estima-se oficialmente que o Brasil investirá pelo menos cerca de R$ 43 bilhões, mas o impacto final nas finanças do país ainda é um mistério – e o gasto pode ser bem maior. Vale lembrar que só as ampliações e melhorias do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, de custos iniciais previstos da ordem de R$ 80 milhões já viram sua previsão de gastos subir para quase R$ 100 milhões – reajuste provocado inclusive pelos atrasos [intencionais?] das obras. Atrasar obras públicas e rever prazos são maneiras de elevar custos muito praticadas pelas construtoras no país – sem falar em custos mais baixos apresentados em projetos, seguidos por superfaturamentos durante as construções, que exigem aditamentos de recursos. Além disso, embora necessária, a ambiciosa promessa de despoluição da Baía de Guanabara não sairá do papel -- ou não será cumprida a tempo pelo menos. Para ser justo, a prática do “superfaturar” não é só brasileira. Montreal sabe muito bem disso. O estádio olímpico, que tem teto retrátil, para ter utilidade no inverno e ser multifuncional, consumiu R$ 1,2 bilhão, valor maior do que o previsto. Hoje um dos pontos turísticos da cidade canadense, com sua torre inclinada, já teve como “inquilino” um time de beisebol, e atualmente times de hockey no gelo e futebol americano se revezam para não deixar o estádio abandonado.

        Em 2009, quando o Rio de Janeiro candidatou-se para ser a sede dos Jogos de 2016, a estimativa de custo apresentada no dossiê ao COI pelas autoridades brasileiras era de cerca de R$ 29 bilhões. Corrigido pela inflação, hoje o investimento ficaria em torno de R$ 43 bilhões. Em agosto do ano passado, o valor do orçamento oficial revisado pela Autoridade Pública Olímpica (APO) era de R$ 38,7 bilhões, bem inferior ao da Olimpíada de Londres  2012, que consumiu aproximadamente R$ 60 bilhões -- considerada a taxa atual de câmbio entre a libra (moeda inglesa) e o real, que vem se desvalorizando. Vale ressaltar que foi a terceira vez que Londres organizou a Olimpíada. A primeira vez, em 1908, participaram do evento 2 mil atletas de 23 países. Em 1948, 3.700 atletas, de 59 países. Em 2012, foram 10 mil atletas, de mais de 200 países, sem contar milhares de turistas e um exército de jornalistas.

          Ao que tudo indica, o valor de R$ 38,7 bilhões, porém, está longe de ser o total a ser gasto por governos e entidades privadas na Rio-2016. A conta apresentada pela APO não considera, por exemplo, a despesa de R$ 62 milhões que a prefeitura carioca terá para mobiliar a vila olímpica – que tem 31 prédios com apartamentos de 2, 3 e 4 dormitórios. Também não inclui a compra de equipamentos esportivos essenciais para os Jogos. Em fevereiro do ano passado, o governo federal anunciou que gastaria R$ 100 milhões com bolas, redes, obstáculos e barcos. Ainda não entraram no orçamento olímpico também os gastos de R$ 14 milhões com a obra de saneamento da Marina da Glória, essencial para as competições de vela, e o pagamento das indenizações a moradores da Vila Autódromo, retirados de suas casas para abrir espaço para a construção do Parque Olímpico. O custo da desapropriação já passa de R$ 80 milhões. Segundo a APO, não há falta de transparência, as contas são dinâmicas e atualizadas conforme a prefeitura e os governos do Estado e federal informam seus gastos com os Jogos. Ou seja, os custos não informados no orçamento hoje podem ser incluídos no futuro. Considerando que a extinção do comitê organizador da Rio 2016 está prevista para 2023, novas despesas podem “surgir “ até lá, mesmo bem depois dos Jogos. Por que tanto tempo? O comitê britânico, por exemplo, foi extinto em 2013, apenas um ano após o encerramento das Olimpíadas.

          Em abril passado, o Tribunal de Contas da União (TCU) deu o primeiro sinal de alerta ao estimar em pelo menos R$ 1,8 bilhão um eventual déficit com os Jogos. Caso isso se confirme, a União terá de pagar o rombo, devido ao chamado Ato Olímpico, que foi sancionado pelo governo federal antes de o Rio de Janeiro ser escolhido como sede do megaevento esportivo. O Ato Olímpico são garantias financeiras públicas dadas ao COI, obrigando o país-sede a pagar a conta caso os organizadores dos Jogos façam uma má gestão dos recursos e fechem no vermelho. O Ato Olímpico não colocou limites para eventual estouro nas contas. O orçamento olímpico é, segundo a organização dos Jogos, dividido em três partes: a Matriz de Responsabilidades (lista de obras e projetos essenciais, principalmente em arenas esportivas), o Plano de Legado (lista de obras de infra-estrutura e de melhorias urbanas prometidas para a Olimpíada) e o orçamento do Comitê Organizador Rio-2016 (recursos privados levantados pelo órgão para a organização dos Jogos).

             A pergunta que sempre está no ar é: como fazer uma Olimpíada que não seja apenas bem-sucedida durante os dias do evento e deixe de fato um legado de melhorias para os moradores das cidades-sedes, principalmente na área dos transportes e equipamentos esportivos utilizáveis? Londres, seguindo o raro exemplo positivo da Olimpíada de Barcelona 1992, conseguiu um efeito duradouro ao aproveitar os Jogos para revitalizar a zona leste da cidade, com sinais já visíveis naquela região até então esquecida pela administração pública: surgiram novas ruas e avenidas, novas linhas de metrô e trens, novos centros comerciais, a atividade econômica local ganhou vida e beneficiou os moradores do entorno do Parque Olímpico. E, para evitar os “elefantes brancos”, Londres optou por “instalações provisórias” para algumas modalidades. Mas não resolveu, por exemplo, a destinação para uma das obras mais caras do evento: o estádio olímpico, que abrigou as provas de atletismo. Mudou então seu uso. Em 2013, o West Ham, um tradicional time de futebol, ganhou a licitação que lhe dá o direito de usar o estádio por 99 anos.
     
          Embora tenha procurado seguir os passos da Olimpíada de Londres, ainda é uma incógnita o eventual efeito positivo das obras de infra-estrutura para a Rio-2016 na vida dos cariocas. Descartada a despoluição da Baía de Guanabara -- que seria um dos maiores legados para uma cidade “bonita pela natureza”---, resta saber o que de fato ficará além da evidente revitalização da região portuária e das mudanças na região da Barra da Tijuca, onde se dará a maior parte das competições. A venda dos apartamentos da vila olímpica certamente deve beneficiar somente as camadas mais ricas da população. E as obras para melhorar a mobilidade urbana?  [Lembrete: Londres, cidade servida por uma extensa malha de metrô, sofreu nas duas semanas do evento. Milhares de londrinos se queixaram “da invasão” de atletas, turistas e jornalistas e preferiram deixar a cidade em “férias forçadas”.]  E os bolsões contra enchentes no Rio serão entregues?


       A organização dos Jogos do Rio parece ter optado – em relação ao legado esportivo -- na criação do Centro Olímpico de Treinamento (COT). Após o megaevento, todas as instalações permanentes usadas tanto no Pan como na Olimpíada formariam um centro de referência para o treinamento e capacitação de atletas de alto rendimento. Além disso, o chamado Parque Radical, em Deodoro, que receberá competições de ciclismo (BMX e mountain bike) e as provas de canoagem (slalom), passaria a ser um centro de esportes radicais. Sabe-se, porém, que equipamentos olímpicos são construídos para atletas de ponta e por isso exigem manutenção e despesas constantes. Com o país sob o impacto da crise econômica, não estariam esses equipamentos fadados ao esquecimento?

       Vale lembrar ainda que a Olimpíada de Atlanta, em 1996, só foi bem-sucedida porque a Coca-Cola, com sede na cidade norte-americana, assumiu o patrocínio do evento. Além da multinacional de bebidas, a participação de outros grandes patrocinadores evitaram os prejuízos. E o Parque Olímpico, erguido numa área degradada de Atlanta, transformou aquele bairro no mais seguro e desenvolvido da cidade. Um time de beisebol herdou estádio olímpico e a Universidade Georgia Tech, o parque aquático. Hoje ninguém se lembra mais do atentado a bomba que matou uma pessoa durante aqueles Jogos, que quase foram interrompidos também pelas graves falhas nos sistemas de ônibus e metrô. O transporte em Atlanta foi caótico, perdia-se muito tempo para se chegar à vila e aos locais das competições.
 
       Há quem acredite que “o jeitinho brasileiro” e “a nossa capacidade de improvisação” impeçam que o Rio de Janeiro -- a primeira cidade da América do Sul a receber os Jogos -- passe a carregar o bastão de “mico olímpico”, que durante décadas foi de Montreal, devido ao tsunami financeiro. Estes são os otimistas – que também acreditam que a imensa visibilidade internacional que os Jogos darão à “cidade maravilhosa” resultará em um significativo aumento do fluxo de turistas estrangeiros depois do evento. Até porque a cidade ganhará novos cartões-postais. Desconfiados, os pessimistas preferem aguardar a realização do evento em si – temendo um colapso no sistema de transporte -- e os números após a Olimpíada, porque “a conta fechar” não é uma questão de fé. Se ficar no vermelho, aquela imagem alegre, de outubro de 2009, dos cariocas festejando nas areias de Copacabana a vitória na escolha da sede da Olimpíada de 2016 pode, então, ter sido apenas o começo de um pesadelo para o Brasil.
     
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domingo, 20 de dezembro de 2015

O RESUMO DA ÓPERA - SEMPRE ÀS QUINTAS

UMA LEITURA SEMANAL DOS JORNAIS -- N11 - 17.12.2015

POR GEORGE ALONSO



 SENTIR-SE INTEIRO: O PÊNIS EM QUESTÃO

               Deu no "NYT". Os EUA estão oferecendo transplante de pênis para mutilados de guerra. O receptor só recebe o pênis, porque o pênis é transplantado sem os testículos. Há várias exigências para se candidatar à cirurgia, que dura 12 horas. Mas a frase de um mutilado de guerra explica tudo: "Quero me sentir inteiro outra vez". A palavra "inteiro", inevitavelmente, remete ao vocabulário dos haras: o cavalo é "inteiro ou castrado"? Há coisas muito sutis que esse transplante talvez seja capaz de devolver. 

              O primeiro transplante de pênis dos EUA será feito em um soldado ferido na guerra dentro de um ano ou menos, segundo o Hospital da Universidade Johns Hopkins. O soldado é jovem e foi ferido no Afeganistão. O novo pênis será de um doador morto. Em entrevista ao “The New York Times”, os cirurgiões esperam restabelecer a função urinária, restaurar as sensações e a capacidade de manter relações sexuais do paciente alguns meses após a operação. Andrew Lee, chefe do serviço de cirurgias reconstrutoras do Johns Hopkins, alertou que os pacientes devem evitar ter esperanças "irreais" de que possam recuperar inteiramente as funções do membro, mas estimou "realista" que possam esperar procriar. Como o jovem não teve os testículos afetados, se tudo dor bem, poderá ter filhos. Entre 2001 e 2013, 1.367 militares enviados ao Iraque e ao Afeganistão foram feridos nos genitais, informou o Pentágono ao jornal. Quase todos tinham menos de 35 anos e foram feridos em explosões de bombas artesanais. A faculdade de medicina da Johns Hopkins autorizou mais 59 transplantes experimentais deste tipo. Depois, os resultados serão avaliados para decidir se a operação poderá se configurar como procedimento habitual. 

O  MÉDICO E O PACIENTE: POR QUE LEVY CAIU?

                  O sociólogo André Singer comenta a saída de Joaquim Levy (foto), no artigo "Antes tarde", sobre o primeiro ano do segundo mandato de Dilma, e as chances de dar certo com Nelson Barbosa na Fazenda, publicado na "Folha".

              Após um ano trágico, a presidente Dilma Rousseff corrige o dramático erro que cometeu ao optar por Joaquim Levy e coloca no Ministério da Fazenda aquele que deveria ter sido o escolhido desde o início. Diante das opções moderadas que a correlação de forças provavelmente impunha naquele distante novembro de 2014, o economista Nelson Barbosa era a melhor escolha. Vamos ver o que conseguirá fazer agora que o país rola no despenhadeiro do austericídio.

             As condições em que Barbosa assume são das mais difíceis. No entanto, chega ao comando da economia quando novo pacto de classe aponta no horizonte. Depois do fracasso do ensaio desenvolvimentista apoiado na coalizão entre trabalho e capital formalizada em maio de 2011, houve reagrupamento da burguesia em torno do ajuste recessivo. De 2013 em diante, a frente produtivista se desfez. 

            Foi necessário que, em 2015, uma das mais graves retrações em décadas ameaçasse não só as conquistas recentes dos empregados, mas igualmente a sobrevivência dos capitalistas, para que a unidade do setor produtivo começasse a se restabelecer. Na terça passada, representantes da CUT, da Força Sindical e de outras quatro centrais, junto a relevantes associações de empresários, entre elas a Confederação Nacional da Indústria (CNI), entregaram a Dilma documento sob o título "Compromisso pelo desenvolvimento".

            De acordo com Clemente Ganz Lúcio, diretor do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a proposta, destinada a propiciar transição rápida para o crescimento, sugere a retomada do investimento público e privado em infraestrutura, em particular nos setores de petróleo e gás; o destravamento da área da construção; o incentivo à exportação industrial; a ampliação do capital de giro para as empresas e o fortalecimento do mercado interno.

           A adesão do capital a essa agenda não é completa, como o demonstra a significativa ausência da Fiesp entre os signatários. Dada a fragilidade política do governo, a tarefa número um do novo ministro seria a de negociar o apoio dos até aqui recalcitrantes. Contudo, há sinais de que mesmo o setor financeiro estava insatisfeito com a política seguida por Levy, o que poderia facilitar em algo a tarefa de unificar a sociedade em torno de um horizonte construtivo.

          Dada a profundidade do buraco econômico em que caímos e a gravidade da crise política, a missão do novo ministro é quase impossível. Mas depois de ter tomado caminho por completo equivocado, o lulismo volta aos próprios trilhos. Pode ser tarde demais para salvar paciente que respira por aparelhos, mas ao menos o médico intensivista quer fazê-lo. O anterior exalava evidente antipatia pelo doente. 

A FRASE

"A multidão que passa barulhenta e circula por aqui está atrás de um Duce de ocasião, um líder que se apresente 'acima dos partidos' e cultive incontido ódio por todos os tons de vermelho, como o próprio Mussolini"
[Trecho do livro "Golpe de Estado", de Palmério Dória e Mylton Severiano, recém-lançado. Qualquer semelhança é mera coincidência]


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Esta coluna entra em férias e volta em meados de janeiro

domingo, 13 de dezembro de 2015

A SOLIDÃO DENUNCIADA


        
       Está bem! Conjuguei o verbo querer no tempo errado [disse ao rapaz, ou melhor digitou, hoje ninguém diz, digita]. Estava irritada demais para saber. Odeio bate-boca seja real ou virtual e não vejo lógica alguma em colecionar inimigos [inimigos virtuais então! Ô, coisa mais besta!]. Nós nos equivocamos. Espero sinceramente que tente não odiar-me. Eu não gostaria de saber que você é um feiticeiro vodu poderoso [pausa dramática]. Por favor, diga que você não é. Tem razão! Os meus desejos não são sonhos. São fantasias, "faz favor"! Algumas mais inocentes. Outras nem tanto. Não posso evitar que sejam contigo. Em algum momento irão embora. Em 20 anos, talvez?
       Publicou o texto na íntegra! Concordo com sua descrição e queixas. Só se esqueceu de escrever sobre "scammers", pessoas com um gosto tão refinado, capazes de perceber beleza de olhos e sorrisos em avatares totalmente desprovidos dos mesmos. Mas, sabe?, as pessoas aqui não são assim tão diferentes das reais. Os sites apenas viabilizam encontros que em circunstâncias normais seriam inviáveis -- como aqueles oriundos de Estados diferentes por exemplo -- e o amor, embora possível, por ser como uma planta daninha, viceja em terrenos aparentemente áridos e inférteis [Hitler, o genocida mais maldito de todos, aparentemente amava sua companheira, Eva Braun, e casar-se algumas horas antes de uma captura ou morte certa foi um ato muito romântico], torna-se um pouco mais difícil de alcançar por conta da demanda.

        O site relata milhões de inscritos, entretanto o registro de usuários online dificilmente ultrapassa a casa dos 20 mil. Ainda assim é um número assustador de caras e bocas. É como experimentar perfumes. Depois de alguns minutos, todos parecem iguais. Minha visão pessoal: não existe amor à primeira vista. Ou amor sem cheiro, textura, sabor. Sem algumas afinidades reais [porque papel, nesse caso a tela do computador, aceita tudo], sem admiração mútua. Sem falar do respeito, da cumplicidade. Tudo isso só se alcança com o tempo. O que existe à primeira vista é desejo. Em intensidades variáveis. Amor, poderá surgir depois ou não.

        E sobre safadeza no site. "...Que devagar vais desfolhando a líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-lambilusamente ligada à forma ereta, qual se fossem a boca o próprio fruto e o fruto a boca, oh chega, chega, chega de beber-me de matar-me, e, na morte, de viver-me..." É Carlos Drummond, vocè sabia? Pois, é um trecho de um de seus poemas eróticos. Safadinho, né? Mas quem não é? Corrigindo: então, quem não é?

        Havia uns três dolorosos dias que não sonhava com a cor de teus beijos e o deslizar agoniante de sua pele queimando a minha. O desejo, pulsando nas têmporas, nos caminhos esquerdos e nos lugares escondidos. Branco ou tinto? Minha cabeça em seu peito e uma dúvida: acaricio suas pernas ou você, as minhas?

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sábado, 12 de dezembro de 2015

O RESUMO DA ÓPERA - SEMPRE ÀS QUINTAS

 UMA LEITURA SEMANAL DOS JORNAIS - N10 - 10.12.2015

GEORGE ALONSO

 José Serra: tucano aliado da ambição de Michel Temer visita governadores, contra Dilma 
Temer quer a faixa



















O impedimento de Dilma e o embaixador do golpe

O desembarque do vice de Dilma, Michel Temer (PMDB), um ano depois de eleito é mais uma demonstração de que o presidencialismo de coalizão está esgotado, além da barganha descarada e corrupta no Congresso. Ninguém consegue governar sem apoio do baixo [baixíssimo] clero dos parlamentares. Com a carta chororô e o discurso  de "precisamos unir o Brasil", Temer, o traidor, tenta convencer governadores que são contra impedir a presidente, para que apóiem a derrubada da petista por meio do artifício legal [questionádo] das "pedaladas fiscais".  Se a presidente for impedida, pergunta-se, qual governador ou prefeito será também afastado??? Não se trata de apoiar "mutretas fiscais", mas o resultado eleitoral jamais aceito pela oposição é a razão de tentar tirar do Planalto uma presidente de mãos limpas (até agora pelo menos). Trata-se de uma ameaça a democracia. Até o "NYT" percebeu a "jogada" e a denunciou em editorial. O senador José Serra (PSDB) tem desempenhado um papel que é bem de seu feitio: tenta convencer governadores a abandonar o apoio a Dilma. Serra é o embaixador de Temer, é o embaixador do golpe branco. E já tem vaga garantida num eventual governo Temer.


Frase da semana

"Você é um homem deselegante, descortês, arrogante e prepotente. Por isso nunca chegará à Presidência da República"
Kátia Abreu, ministra da Agricultura, recém-casada, ao jogar uma taça de vinho branco no rosto do senador José Serra (PSDB) que a chamou de "namoradeira" numa festa de final de ano em Brasília

Elite corrupta na cadeia

Marcelo Odebrecht deixa a presidência da holding da família. Justiça mantém presos executivos da Andrade Gutierrez. Preso, banqueiro é afastado da direção de banco. Vice-presidente da Anfavea também preso é afastado da entidade. Quem diria que veria tanta gente graúda na cadeia? E tem muito mais por aí, alguém duvida?


Estado oligárquico de direito

Esse é o título do artigo que o filósofo Vladimir Safatle publicou na "Folha" e que reproduzo aqui, pela clareza de sua visão do momento político brasileiro 

Neste momento, a população brasileira vê, atônita, a preparação de um golpe de estado tosco, primário e farsesco. Alguém poderia contar a história da seguinte forma: em uma república da América Latina, o vice-presidente, uma figura acostumada às sombras dos bastidores, conspira abertamente para tomar o cargo da presidente a fim de montar um novo governo com próceres da oposição que há mais de uma década não conseguem ganhar uma eleição. Como tais luminares oposicionistas da administração pública se veem como dotados de um direito divino e eterno de governar as terras da nossa república, para eles, "ganhar eleições" é um expediente desnecessário e supérfluo.

O vice tem como seu maior aliado o presidente da Câmara: um chantagista barato acostumado, quando pego em suas mentiras e casos de corrupção, a contar histórias grotescas de fortunas feitas com vendas de carne para a África e contas na Suíça com dinheiro depositado sem que se saiba a origem. Ele comanda uma Câmara que funciona como sala de reunião de oligarcas eleitos em eleições eivadas de dinheiro de grandes empresas e tem ainda o beneplácito de setores importantes da imprensa que costumam contar a história do comunismo a espreita e do bolivarianismo rompante para distrair parte da população e alimentá-la com uma cota semanal de paranoia. O nome de sua empresa diz tudo a respeito do personagem: "Jesus.com".

O golpe ganha um ritmo irreversível enquanto a presidenta afunda em suas manobras palacianas estéreis e nos incontáveis casos de corrupção de seu governo. Ela havia dado os anéis para conservar os dedos; depois deu os dedos para guardar os braços. Mais a frente, lá foram os braços para preservar o corpo, o corpo para guardar a alma e, por fim, descobriu-se que não havia mais alma alguma. Reduzida à condição de um holograma de si mesma e incapaz de mobilizar o povo que um dia acreditou em suas promessas, sua queda era, na verdade, uma segunda queda. Ela já tinha sido objeto de um golpe que tomou seu governo e a reduziu à peça decorativa. Agora, nem a decoração restou.

Bem, este romance histórico ruim e eternamente repetido parece ser a história do fim da Nova República brasileira. Que ela termine com um golpe de estado primário, fruto de um pedido de impeachment feito em cima da denúncia de "manobras fiscais" em um país no qual o orçamento é uma ficção assumida por todos, isto diz muito a respeito do que a Nova República realmente foi. Incapaz de criar uma democracia real por meio do aprofundamento da participação popular nos processos decisórios do Estado e equilibrando-se na gestão do atraso e do fisiologismo, ela acabou por ser engolida por aquilo que tentou gerir. Para justificar o impeachment, alguns são mais honestos e afirmam que um governo inepto deveria ser afastado. É verdade, só me pergunto por que então conservar Alckmin, Richa, Pezão e cia.

O fato é que, no lugar da Nova República, o Brasil depois do golpe assumirá, de vez, sua feição de Estado Oligárquico de Direito. Um estado governado por uma oligarquia que, como na República velha, transformou as eleições em uma pantomima vazia. Uma oligarquia que já mostrou seu projeto: uma política de austeridade que não temerá privatizar escolas (como já está sendo feita em Goiás), retirar o caráter público dos serviços de saúde, destruir o que resta dos direitos trabalhistas por meio da ampliação da terceirização e organizar a economia segundo os interesses não mais da elite cafeeira, mas da elite financeira.

Mas como a população brasileira descobriu o caminho das ruas (haja vista as ocupações dos estudantes paulistas), engana-se aqueles que acreditam poder impor ao país os princípios de uma "unidade de pacificação". Contem com um aumento exponencial das revoltas contra as políticas de um governo que será, para boa parte da população, ilegítimo e ilegal. Mas como já estamos dotados de leis antiterroristas e novas peças de aparato repressivo, preparem-se para um Estado policial, feito em cima de leis aprovadas, vejam só vocês, por um "governo de esquerda". Faz parte do comportamento oligarca este recurso constante à violência policial e ao arbítrio para impor sua vontade. Ele será a tônica na era que parece se iniciar agora. Contra ela, podemos nos preparar para a guerra ou agir de forma a parar de vez com este romance ruim.

Frase e comentário

"O mal-estar presente dos brasileiros afeta a memória que eles têm do governo Lula e, por extensão, suas chances como candidato no futuro"
Hélio Schwartsman, colunista da Folha, sobre a avaliação do governo Lula em 2010 e agora. Em 2010, 71% consideravam a sua gestão a melhor da história do país contra 39% agora, sem contar a derrota em um eventual 2º turno em 2018, segundo pesquisa feita pelo Datafolha.


Só faltou dizer que Lula sofre uma campanha diária de desgaste na mídia que a propaganda eleitoral na TV pode reverter. Agora, se Lula for mesmo candidato, infelizmente, deve haver uma eleição muita radicalizada e com alto risco de violência entre simpatizantes petistas e antipetistas. O país, cindido, vai ter um pleito "tipo Venezuela", com jeito de plebiscito.  

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