segunda-feira, 5 de outubro de 2015

VOCÊ VIU? HARRY POTTER MORREU NO ALEMÃO


O PM dublador de "Harry Potter" na versão brasileira do filme foi morto por bandidos no Complexo do Alemão

            A realidade foi cruel. Na batalha do bem contra o mal, o mal venceu. Desta vez, pelo menos. O dublador do personagem Harry Potter no cinema, protagonista dos filmes baseados na série de J.K. Rowling, foi assassinado na quarta-feira da semana passada (dia 30) em confronto com traficantes. O dono da voz do bruxinho era o policial militar Caio César Ignácio Cardoso de Melo, que completou 27 anos dois dias antes de sua morte. Ele trabalhava na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Fazendinha, no Complexo do Alemão, uma das áreas mais perigosas do Rio de Janeiro.

        Melo patrulhava a localidade de Campo do Sargento, na comunidade Fazendinha, por volta de 11h, quando a sua guarnição foi atacada. Surpreendido, durante o tiroteio, ele foi atingido por três tiros, um deles no pescoço. Levado para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, morreu após quatro paradas cardíacas durante a cirurgia de emergência. Caio Melo dublou, além de Harry Potter, mais 20 personagens, segundo consta em uma página dedicada a ele na Wikipedia. Entre eles, o personagem de Daniel Radcliffe no filme "December Boys", o TK do desenho animado "Digimon", o Diego da série "Rebelde" e Sokka em "Avatar: A Lenda de Aang".

        A escritora J.K. Rowling comentou a tragédia no twitter: "Desesperadamente triste de ouvir que Caio César, a voz brasileira de Harry Potter, morreu aos 27 anos. Minhas condolências para a família". Nas redes sociais, páginas dedicadas a dubladores lamentaram a morte. "Acabamos de receber a triste notícia que o dublador Caio Melo, que também exercia a profissão de policial, morreu", postou no dia do assassinato a página Dubladores Brasileiros. O site Dublapedia Brasil publicou uma nota no Facebook, assim como a página Daily Potter News, dedicada aos fãs do bruxo: "Levantem suas varinhas, potterheads", pedia o texto em homenagem a Caio Melo, dizendo que ele realizou "o sonho de ser policial para defender as pessoas, como o personagem que marcou sua carreira no cinema". Em nota oficial, a Warner Bros. Pictures Brasil enalteceu o "imenso talento" que contribuiu para o sucesso da franquia no país. "Foi um prazer ter Caio na família Warner Bros. Pictures Brasil em todos estes anos. Ele se tornou a voz de Harry Potter para uma geração de fãs e estará sempre em nossos corações", disse a nota.

          A relação Polícia Militar x sociedade brasileira é complexa e contraditória. Depois da ditadura militar, embora metade da população diga, segundo o Datafolha, que "bandido bom é bandido morto" [que a eliminação física do mal seria suficiente para, se não garantir segurança, vingar a sociedade], grande parcela teme ou desconfia da polícia. No ano passado, pelo menos 3.022 pessoas foram mortas pela polícia no país, contra 398 PMs, mortos por bandidos. Ontem de manhã, segunda-feira [5 de outubro], um PM foi morto e teve a motocicleta roubada no Rodoanel Mario Covas ao ser abordado por dois marginais perto do pedágio em Carapicuíba, na Grande SP. E quase ninguém ficou sabendo, porque ele não era o Harry Potter. No Rio de Janeiro, em outro tiroteio no Alemão, Deyverson Max da Silva Avelino, de 20 anos, morreu baleado. Segundo a polícia, ele era traficante. Os PMs envolvidos no tiroteio prestaram depoimento e tiveram as armas levadas para perícia.

          Na batalha entre o bem e o mal, parece que apenas casos de bandidos famosos ou de supostos bandidos mortos [ou seja, inocentes sem passagem pela polícia] e de maus policiais [que fraudam tiroteios e matam por prazer] ganham notoriedade e chocam o país. Já bons policiais morrem anônimos, sem choro nem vela, exceto se for "um personagem de cinema". E esse filme se repete todos os dias, com baixa audiência. 

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domingo, 4 de outubro de 2015

UMA IDEIA ANIMAL: ANJOS, PRIVILÉGIO E CUÍCAS

    
Pastora alemã, Lara [1967 -1979]: morte na véspera do réveillon



     30 de dezembro de 1979: Lara, a pastora alemã que cuidei, convivi e conversei durante 12 anos, morreu. O coração dela já não estava funcionando bem há algum tempo, e para não sentir dor no verão ficava deitada no piso frio da garagem, na sombra, olhando para o portão de casa. Na véspera do réveillon, cheguei do trabalho e ela não estava mais lá. Chorei. Melhor, choramos, eu e meus irmãos. Aquele réveillon realmente se tornara inesquecível.

        Até agora ela está na minha memória, e sua foto está no meu "hall da fama", a parede de casa dedicada a imagens da família e parentes. Sou daqueles que acha que o amor-companhia de um cão é algo tão precioso que a prisão é [às vezes] pouco para quem tortura ou maltrata um animal tão generoso -- aliás, corrigindo, dos animais em geral. Digo isso porque gosto muito de ler artigos sobre de cães e adoro ver na TV a cabo documentários sobre bichos selvagens e também os "pets". Foi quando me deparei na internet com a notícia de uma suposta bondade proposta por um vereador de Curitiba (PR).
     
       29 de setembro de 2015: Pré-candidato à prefeitura daquela capital, o Professor Galdino (PSDB) apresentou na terça-feira passada um projeto que institui um dia de folga no trabalho ao servidor municipal quem perder seu animal de estimação. Um dia de luto em caso de morte de seu bichinho. Segundo o projeto, apenas os donos cujos animais são microchipados e com cadastro na Rede de Proteção Animal poderiam usufruir da folga, facultativa e sem prejuízo financeiro.

      O vereador Galdino, conhecido por ser "defensor de causas animais", disse que além de reconhecer o vínculo entre a pessoa e seus animais "o projeto estimula a microchipagem" dos bichos. [Será que um amigo, parente ou ele próprio é sócio de uma empresa do ramo? Ou é um estímulo desinteressado? A suspeita pode ser indevida, mas minguém averiguou.] O microchip é um dispositivo colocado sob a pele no dorso do animal e traz informações sobre o bicho e seu dono, com o intuito de facilitar a localização em casos de perda ou fuga. No projeto, o vereador justificou a medida da seguinte forma: “Os animais são anjinhos que Deus colocou em nossas vidas, vamos sair de vez do antropocentrismo, com o homem no centro do Universo, e entrar no biocentrismo, em que todas as formas de vida são importantes.” A rigor, proposta altera um dos artigos do Estatuto dos Funcionários Públicos Municipais de Curitiba, que dá oito dias consecutivos de faltas devido ao falecimento de cônjuge, companheiro, pais, filhos, avós, netos e irmãos. Para a morte de  sogros, enteados e cunhados, a licença pode ser de dois dias.

     Embora pareça de boa intenção, na verdade o distinto vereador está defendendo mais uma regalia ao funcionalismo. E pior, em vez de promover a defesa dos animais, pode estar incentivando a matança de cães e gatos. Por que só os servidores públicos municipais podem ter um dia de luto? [e o resto da população que trabalha?]. E quem tem cobras e lagartos, passarinhos e peixinhos de aquário? Pode tirar um dia de luto, se um deles morrer?  E se morrerem dois ou vários bichos. O servidor público curitibano vai ter um dia para cada bichinho morto? Outra coisa a temer é a maldade humana: alguém é capaz de arrumar bichos só para arrumar folgas remuneradas. E assim virar um "matador em série" de cães e gatos, deixando aflorar o psicopata que haveria dentro desse eventual funcionário público.

      Até hoje tenho gravada na memória uma imagem de horror de meados dos anos 1960. O pessoal da carrocinha correndo atrás de um bando de cachorros e laçando-os no final da Avenida Santo Amaro, pouco adiante da estátua gigante do bandeirante Borba Gato. Do portão de casa, fiquei olhando aquela cena, aflito. Depois de esganiçar na laçada, o bichinho era arremessado para dentro do caminhão fechado, semelhante ao de um frigorífico. Quando perguntei para onde iriam, fiquei sabendo que seu rumo era o canil municipal. E, se ninguém reclamasse, virariam sabão. Aos 7 anos -- e com a Lara minúscula em casa, dormindo numa caixa de sapato cheia de panos para não sentir frio -- fiquei chocado e paralisado com a notícia. Hoje, não é mais assim, segundo uma amiga que faz trabalho voluntário para adoção no Centro de Zoonoses paulistano. Cães e outros animais sadios não podem ser sacrificados. Há cerca de 15 dias, havia uns 300 cães lá esperando um dono.

    Sempre desconfiei dos espetinhos de carne vendidos em porta de estádio, conhecidos por "churrasquinho de gato" ou "filé de cachorro". E também não gosto de saber que tamborins e cuícas eram feitos com couro de gato no passado, por sua resistência maior. Não é lenda, não. Não é mais assim hoje, dizem [porque há opções melhores e mais baratas], mas nem gosto de pensar no assunto. E se depender de mim, senhor Galdino, farei campanha contra esse projeto e também contra a sua candidatura. Uma vez que o senhor parece fazer mesmo juz ao significado do nome assina: "autoritário". Se como vereador, na semana do dia mundial dos animais [4 de outubro], o senhor tem ideias como esta e defende privilégios, imagino o que não faria como prefeito de Curitiba.  
   

AUSÊNCIA SENTIDA - HISTÓRIAS DE CAMPANHA

1996; Maluf durante visita ao Palmeiras, no dia do aniversário do tradicional clube de futebol, em São Paulo
     
          Durante eleição para prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, decidiu visitar a Sociedade Esportiva Palmeiras no aniversário do clube, em 26 de agosto de 1996. Ele queria eleger Celso Pitta [1946-2009] a todo custo: enquanto o candidato oficial gravava programas para a TV, ele fazia sozinho carreatas pelas ruas da cidade, sempre dizendo "se Pitta não for um bom prefeito, não votem mais em mim". Claro que queimou a língua e se arrependeu: depois de eleito a criatura virou-se contra o criador e eles romperam relações. A gestão Pitta acabou mal avaliada pela população ao final do mandato, segundo pesquisas -- pipocaram denúncias de corrupção feitas até pela ex-mulher Nicéa [que desejava ser secretária do Abastecimento, mas não teve a pretensão atendida pelo então marido prefeito]. Pitta é até hoje [nos índices de pesquisas de fim de mandato] o pior prefeito paulistano.
          Bom, voltemos ao dia 26 de agosto de 1996. Um dos rivais do afilhado político malufista era José Serra, tucano e notório palmeirense. Ele também ia visitar a sede do time de coração no mesmo horário. [Sobre Maluf, certa vez disse que "na infância" torcia para o Verdão, mas que também era são-paulino. Pelo que entendi, virou a casaca da adolescência em diante.] Estava na redação da Folha, eram 20h, e imaginei um encontro eventual dos dois, Serra e Maluf em campanha pró-Pitta, no clube naquele conhecido beija-mão da política e naquele igualmente conhecido anúncio de promessas. Além disso, podia ocorrer entreveiro entre correligionários dentro ou perto do Palmeiras.

         Como eu havia sido escalado pela Folha para ser o "carrapato" do Pitta na campanha, pensei: "Vou ganhar hoje o dia de amanhã, se houver por acaso esse encontro". Saí da redação, e com meu próprio carro tratei de dar uma passadinha lá antes de ir para casa. Nada aconteceu. Quando cheguei [da Folha até lá era um pulinho], Serra tinha antecipado a visita para evitar Maluf, que havia acabado de chegar e estava com dirigentes do clube. Fiquei na entrada do Palmeiras, frustrado. Até que ele apareceu, sempre simpático e respeitoso. De repente, ele me pegou pelo braço e disse, alto o suficiente para quem quisesse ouvir, naquele tom de voz que fez a fama de imitadores e humoristas: "Meu caro George Alonso, há dois dias você não nos acompanha, há dois dias a Folha não fala mal de mim!". Houve gargalhada geral: minha, dele e dos assessores. Um assessor veio e me disse, rindo, aí bem baixinho: "Ele gosta de você, senão não faria essa brincadeira". Ésse instante foi flagrado pelo fotógrafo da campanha malufista (foto abaixo) e me presenteado no dia seguinte no comitê. Dou risada do episódio até hoje. Nunca tive problemas com Maluf enquanto fui repórter, sempre me recebeu com respeito, embora não fosse seu eleitor.

        Nessa mesma campanha, eu devolvi a brincadeira. Durante carreata, Maluf apontou para um outdoor de Serra e me perguntou no mesmo tom: "Meu caro George Alonso, qual é a careca mais bonita, a minha ou a dele?". Por um segundo houve silêncio no caminhão de som. Olhei para o cartaz e respondi: "A minha, prefeito!" Nova gargalhada geral.

Leia outra histórias de campanhas 

TORCEDOR DA LUSA -- AMIN APRESENTA ELEITORES
SAMBA NO PÉ - COVAS NA ROSAS DE OURO

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SAMBA NO PÉ - HISTÓRIAS DE CAMPANHA

1988: Covas na quadra da escola de samba Rosas de Ouro, reduto tucano no mundo dos bambas paulistanos

        Em 1998, a eleição estadual foi renhida. No primeiro turno, o governador Mario Covas, tucano em busca da reeleição, foi derrotado de forma fragorosa por Paulo Maluf, por 32,2% contra 22,9%, e com só 74 mil votos à frente da 3ª colocada, a petista Marta Suplicy [22,5%]. Até hoje os petistas se queixam das pesquisas, que não davam essa diferença mínima entre Covas e Marta [equivalente à lotação atual do estádio do Morumbi], e dos tucanos, por terem feito campanha pelo "voto útil" já no primeiro turno, sugerindo que só Covas seria capaz de vencer Maluf no 2º turno.

       Na antevéspera da eleição, sexta-feira, 2 de outubro, por exemplo, o Instituto Datafolha divulgou o seguinte resultado de pesquisa sobre intenção de voto dos paulistas: Paulo Maluf, 31%; Francisco Rossi,18%; Mario Covas,17%; Marta Suplicy,15% e Orestes Quércia, 6% . O resultado das urnas mostrou um erro de 7,5% em relação aos votos de Marta. Rossi é que estava atrás na faixa dos 15% [dentro da margem de erro]. O "voto útil" em Covas, então, tirou a petista do segundo turno, já que na realidade ela havia, no mínimo, ultrapassado o conservador Rossi. Mas isso não aparecia na pesquisa Datafolha.
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        No segundo turno, Covas -- que tinha baixos índices de aprovação em relação ao seu primeiro mandato -- se reelegeu governador paulista a partir de um mote único: "ética na política" contra "rouba, mas faz". Colou, claro, e Covas obteve 55% (9,8 milhões de votos) e Maluf ficou com 44% (7,9 milhões de votos). Uma virada espetacular, olhando para o placar do primeiro turno. Foi como se todos os eleitores de Marta, Quércia [sepultado eleitoralmente ali] e 30% dos que votaram em Rossi tivessem descarregado suas fichas no tucano.
        Nesse tempo, trabalhava na sucursal paulista do ainda influente Jornal do Brasil [o mesmo que pouco mais de uma década antes, em manchete de capa, dizia que Erundina crescia e podia vencer em São Paulo, furo que fez se moverem seus concorrentes nacionais, à época só Folha e Estadão]. Mal administrado, o JB já passava por dificuldades financeiras, não depositava o FGTS, mas ainda tinha um punhado de bons colunistas e mantinha uma luxuosa, ainda que esvaziada, sede no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, onde hoje fica uma academia de ginástica.

        O ambiente de trabalho, apesar de tudo, era o melhor possível para os padrões das redações dos grandes jornais. Só havia um carro de reportagem. Era uma loucura, pegava-se metrô ou táxi para fazer as entrevistas. Era como um grande time de futebol que perdera alguns craques, mas os que estavam ali vestiam a camisa com garra, talvez para compensar. Havia muita liberdade para sugerir pautas. Até trabalhei num domingo de folga para escrever texto de uma página com o bastidor da aliança Lula-Ciro que seria anunciada no dia seguinte, ainda no primeiro turno do pleito que reelegeria Fernando Henrique Cardoso sem segunda rodada de votação. O Plano Real era um sucesso, moeda forte e inflação baixa. Pouca gente sabia [ou imaginava] que a paridade com o dólar iria acabar em janeiro. O país sofria um forte ataque à moeda e milhões [depois bilhões] de dólares estavam sendo diariamente retirados daqui por especuladores e investidores, sem que o governo conseguisse defender o real. Eu havia voltado de um ano sabático no exterior, estava muito feliz e irradiava essa leveza, especialmente às mulheres. Não foi por acaso que [embora tardiamente aos 42 anos] me casei com a mulher com quem teria o adorável Thiago, hoje um garoto com 7 anos de vida.

         Por que estou contando isso? Porque me sentia tão bem que nem sair para trabalhar numa sexta-feira à noite me tirava o bom humor. Foi assim que, no segundo turno, fui cobrir a visita de Covas a uma escola de samba paulistana, a Rosa de Ouro, na zona norte, conhecido reduto tucano no mundo dos bambas. O governador candidato chegou acompanhado pela primeira-dama, dona Lila. Assim que foi anunciada a sua presença, a bateria acendeu a quadra. De repente, dona Lila cedeu ao arrepio dos tambores e começou a sambar, e bem. Olhei para Covas e rindo disse: “Olha lá, dona Lila está mostrando samba no pé”. “E o senhor, não vai fazer a corte?” insisti. O candidato, rindo bastante, colocou a mão no meu ombro e me disse: “Só vou se você mostrar também sua ginga”. Repiquei: “O povo está esperando, governador. O senhor é o candidato”. Gargalhamos, mas vou ficar devendo o nome do fotógrafo que registrou a cena. Até que uma porta-bandeira da Rosas, uma mulata de cair o queixo, chamou-o para o meio da quadra. Sorrindo, Covas resistiu ao convite bravamente e ficou devendo ali o que mostrou nas urnas: um incrível jogo de cintura eleitoral. 

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AUSÊNCIA SENTIDA -- MALUF NO PALMEIRAS  
TORCEDOR DA LUSA -- AMIN EM BUSCA DE VOTOS

       
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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O RESUMO DA ÓPERA - SEMPRE ÀS QUINTAS

UMA LEITURA SEMANAL DOS JORNAIS - N1 - 02.10.2015

POR GEORGE ALONSO



MONOTRILHO DE SP NÃO TINHA PROJETO NEM ORÇAMENTO...

Agora está explicado porque parece obra parada. A obra da linha 17-ouro, um dos monotrilhos de São Paulo, não tinha projeto básico e nem orçamento quando foi licitada, o que contraria a lei. É o que constatou auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União), aprovada ontem, quarta-feira (30). Um trecho da obra, de oito quilômetros, deveria ficar pronto para a Copa de 2014, ligando Congonhas ao Estádio do Morumbi, inicialmente. Mas o projeto só estará terminado entre 2016 e 2017. O custo total do projeto de 18 quilômetros, que era de R$ 3 bilhões já passou para R$ 5 bilhões. Só, a tá? E ninguém vai investigar?

O JOGO DE FORCA CONTINUA

Com a corda no pescoço, Eduardo Cunha se nega a falar sobre contas no exterior. Suíça envia documentos de supostas contas secretas do deputado do PMDB e familiares. Com a corda no pescoço, Dilma escuta Lula e faz alterações nos ministérios para atender o PMDB. Acordão sacrifica ministro da Educação, Renato Janine, e troca Mercadante por Jacques Wagner na Casa Civil. E uma pesquisa CNT/Ibope publicada pelo Estadão mostra reprovação ao governo estável em 69% e bom/ótimo em 10%. Cunha rechaça 3 pedidos de impedimento port falta de provas. Quem pode mais, chora menos. E nós, com a corda no pescoço, vamos ao supermercado e nada mudou...10% lá tb ou mais. Não só a política vai decidir essa parada... seja por impedimento seja nas urnas. Preparar-se para o pior: como diria Raulzito, vai subir a gasolina e o preço do horror, vai cair o nível mental, o preço do caos e...

ROTA 66 ASSASSINA - CRIME DO ESTADO E A FARSA DA INVESTIGAÇÃO

O coronel Erasmo Dias contou tudo, mas pediu para a confissão ser publicada após sua morte. A história de três jovens mortos sem reagir pela Rota durante a ditadura militar, nos anos 1970. Uma prática corriqueira da polícia [de forjar morte por resistência à prisão, com tiroteio] feita contra filhos da classe média alta teve repercussão enorme em São Paulo, mesmo com a censura. Os muros dos Jardins amanheceram pichados como protesto: "Rota 66 assassina". A Rota até precisou mudar a numeração dos carros.  ROTA 66 - A CONFISSÃO  [do Estadão]

AS MOTOS E O TRÂNSITO PAULISTANO
[E QUANDO A FISCALIZAÇÃO VAI COMEÇAR?????]

Líder em acidentes, motos recebem só 4% do total de multas em São Paulo. As motos representam 13% da frota paulistana e seus ocupantes são metade dos feridos em acidentes de trânsito na cidade. Originalmente, o código de trânsito de 1998 proibia as motos entre as faixas, mas o artigo foi vetado pelo então presidente FHC. Os dados colocam a moto como o principal gargalo da gestão Fernando Haddad (PT) no combate à violência do trânsito. Hoje a diferença entre a participação das motos no total da frota e no total das multas é a maior entre todos os tipos de veículos e se mantém no mesmo patamar desde o início da gestão, segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Para especialistas, é preciso rever a fiscalização para reduzir mais as mortes de condutores e garupas em motos. A queda no primeiro semestre deste ano foi de 14%, índice menor do que o de outros tipos de usuários. De janeiro a junho, morreram 89 ocupantes de motos contra 85 de carros, por exemplo.
"A moto hoje é o grande problema do trânsito de São Paulo. Uma grande parcela dos motociclistas, infelizmente, ninguém mais segura. Andam acima da velocidade, na contramão, furam o semáforo vermelho", diz Horácio Figueira, mestre em transportes pela USP. Uma pesquisa coordenada por ele e executada pela CET no início do ano apontou que os motociclistas são, proporcionalmente, os que mais cometem infrações na cidade. Nas marginais, a participação desses veículos em acidentes chega a 83%. Figueira defende que a prefeitura proíba o uso do corredor entre os carros para as motos. "Há base legal para multar, mas a CET não multa porque não quer", diz. O engenheiro diz que outros artigos da lei são desrespeitados quando se anda no corredor: ultrapassagem pela direita, desrespeitar a distância lateral e circulação fora da faixa própria. Em 2007, após alta nas mortes, a CET chegou a anunciar que faria essa fiscalização, mas ideia não foi adiante.

[Os motociclistas dizem que isso acabaria com a mobilidade da moto. Mas do jeito que está seria melhor, menos trágico fisicamente; embora economicamente possa ser outra tragédia, com desemprego em massa e oferta menor de serviços de entrega].

Para o engenheiro Eduardo Vasconcellos, consultor Associação Nacional de Transportes Públicos, a redução dos acidentes passa por uma maior fiscalização do excesso de velocidade e por medidas que impeçam que os motociclistas circulem perto dos outros veículos. "Motos são mais vulneráveis por uma questão física, muito mais leves. Onde circulam ao lado de veículos mais pesados, deveria haver um tratamento especial." A gestão Haddad reconhece dificuldades para fiscalizar, mas diz estar tomando medidas, como o uso de radares portáteis nas marginais.
[resumo da Folha]

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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A GENTE ERA FELIZ! MILICO QUASE ESTRAGA TUDO

Cabo Frio: a ponte Feliciano Sodré, com vão histórico. foi concluída em 1926 e quase demolida pela ditadura militar 
                 

 Diante de pousada em Cabo Frio: minha irmã, papai, eu e a Veraneio
            Megaferiadão em 21 de abril de 1971, plena quarta-feira. Em qualquer feriado era sempre o mesmo ritual. Papai pegava a perua Chevrolet Veraneio azul calcinha e picava a mula rumo a Cabo Frio e Búzios. Em qualquer feriadão, eram 9 horas de estrada. Meu irmão mais velho ia conversando direto com o papai, para que não sentisse sono [o meu irmão, Sérgio como o pai, sempre foi boa prosa]. Primeiro, a gente enfrentava a via Dutra. Depois, como ainda não existia a ponte Rio-Niterói, era preciso contornar a baía de Guanabara pela Rio-Petrópolis até Magé. Brincávamos no caminho, "vai chover até Araruama, depois limpa". Batata, não sei que vento batia naquela região, mas a gente chegava sempre com a noite estrelada. Garantia de sol nos dias seguintes, muito sol aliás. Aquilo, sim, era o paraíso na Terra.
      
               Em Cabo Frio, havia as dunas perto da cidadezinha, e as praias de Peró e Conchas, vazias depois das salinas. Sem uma casa sequer à beira-mar. Almoço às 15h na casa do pescador na ponta da praia: mexilhão com arroz. Em Búzios, a Ferradura era mata até na areia. E a pequena João Fernandes linda linda e água cristalina. Mais a Prainha [ou João Fernandinha], onde minha outra irmã, Flavia, achou, afundada na areia, a chave do carro de um jovem casal de turistas já meio desesperado. Pela incrível sorte, sorte de criança, ela ganhou NCr$ 20 [cruzeiros novos]. "Papai, olha o que eu ganhei!!!" Meu pai rapidamente pediu que ela devolvesse o dinheiro. O que ela topou. Uma aulinha rápida de cidadania.

Conchas: praia onde nao havia nada nem casas nem muita gente

               Pousadas deliciosas e rústicas, chalés, um povo simples e generoso. Em Cabo Frio, lembro-me de dois episódios. Como não havia viva alma nem bar na praia, a gente levava comida e côco verde gelado pra praia do Peró. Não havia como abrir o cocô sem facão, Era um sábado e o açougueiro estava fechando. Ele, então, nos emprestou um facão de seu trabalho, dizendo: "Devolve na segunda". Dito e feito, pode? O outro episódio: um pipoqueiro que vendia cuscus de tapioca doce com côco, maravilhoso, brincava com o meu pai: "Seus filhos são todos paulistas", dizia. Sabe o motivo? "Paulista não pega o saco de pipoca por baixo. Sempre por cima, pra não deixar cair no chão uma pipoca sequer". Um a um pegávamos como ele falara e ele ria: "Está vendo, é fácil reconhecer paulista". O carrinho de pipoca do moço [naquela pracinha perto do canal e da ponte de uma mão só, que tinha sido construída havia quase 50 anos e levava a Búzios] era o mais bem cuidado, pintado de azul e branco. O final de tarde era sempre lá naquela pracinha, sempre o mesmo pipoqueiro. E voltávamos caminhando para a pousada, perto do canal.             
               
              À noite, de repente, um jantar diferente em Rio das Ostras, no "Le Bistrô" de um francês. Ali experimentei minha primeira batida de maracujá, aos 12 anos [uma novidade da época, com a "liberação" do papai, que abriu "exceção"]. E voltávamos para a pousada de Cabo Frio devagar, sem pressa, janelas abertas, brisa no rosto, cantando músicas em coro, com o papai ao volante da perua cantando também. Tempos inesquecíveis. Aquela Cabo Frio não existe mais, Rio das Ostras, acho que também não. Búzios, quem sabe, talvez tenha algum vestígio. O único risco que havia era a brisa constante: sem protetor solar, você podia fritar sem perceber e acabar no hospital.
             
       O dia em que a ponte quase foi derrubada


Título da reportagem sobre a ponte estreita sobre o canal de Itajuru


 "Diário de Notícias" traz nota sobre a ponte em 25 de março de 1973
        
       No início dos anos 1970, no auge da ditadura militar e do "milagre brasileiro", o ministro e coronel Mário Andreazza, dos Transportes, quase demoliu a Ponte Feliciano Sodré, que tinha só uma pista em Cabo Frio. Era preciso esperar o sinal abrir para atravessá-la de carro. Vindo da pracinha de Cabo Frio, à esquerda era o único caminho até Armação de Búzios [ou Búzios] e à direita a rota para as salinas e as praias igualmente virgens e limpas do Peró e Conchas. Para qualquer dos lados, a estrada era de terra, chão batido. [Poeeeeeira, levantou poeira!] A pedido do prefeito, o ministro prometeu uma nova ponte, mas por pouco não derrubou aquela obra antiga tombada pelo patrimônio histórico, concluída em 1926 e que impulsionou a extração de sal na região. Naquela época, Búzios era um "bairro" de Cabo Frio, O jornal "Diário de Notícias" anunciou, em 1973, a construção de uma subprefeitura em Búzios para "atender ao fluxo de progresso daquele distrito".
  
        Destruir a "pontinha" [como a gente chamava] teria sido um crime à história da cidade e à arquitetura [pelo tamanho do vão, inédito]. Seria como demolir a ponte pênsil em São Vicente. Hoje, aliás, a ponte [se não é] deveria ser usada só por pedestres e ciclistas, afinal Cabo Frio é praticamente plana, com vocação fortíssima para as ciclovias. Em 25 de março de 1973, uma reportagem do jornal "Diário de Notícias" dizia claramente que o ministro "autorizou estudos para a construção de uma nova ponte de acesso a Armação de Búzios que substituiria a existente sobre o canal de Cabo Frio". O prefeito da cidade, segundo o jornal, dizia que o Patrimônio Histórico Nacional desejava que a futura ponte fosse "uma réplica da atual", só que maior. O jornal informava também que uma série de reportagens sobre problemas da cidade na alta temporada havia mostrado "o quanto a ponte velha" era "prejudicial" ao crescimento do turismo.

        A ponte escapou por um triz. Uma outra foi feita ao lado. A nova ponte não é uma réplica da antiga e foi entregue em 1983. A ditadura militar acabou em 1985.

                          
Praia da Ferradura (Búzios):onde havia mata, hoje só há casas


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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

PARIS: DIA PARA ESQUECER DO PIOR AR DO MUNDO


Domingo sem carro em Paris: milhões a pé ou de bicicleta tomaram as avenidas como a que leva ao Arco do Triunfo
De manhã bem cedo: ninguém nas ruas fechadas a veiculos
Namoro na bici: sem carro, segurança total


             Um grande sucesso. Milhares de pessoas nas ruas. A iniciativa de "Um dia sem carro", promovida pela prefeitura de Paris, baniu os veículos do centro expandido e de áreas residenciais nobres da capital francesa. Na região situada entre o Palácio da Bastilha e o Arco do Triunfo, no perímetro de pontos turísticos como a Torre Eiffel e em outras partes da cidade, das 11h às 18h, os carros não puderam circular. Dentro dessas áreas só foi permititida a circulação de veículos oficiais e automóveis em casos de emergência -- mesmo assim com a velocidade máxima de 20 km/h. Nas demais regiões, fora das zonas determinadas, mas próximas às ruas fechadas aos carros, houve redução dos limites de velocidade para "inacreditáveis" 30 km/h [imagine isso em São Paulo!].

           “É uma ótima ideia. É talvez a primeira vez que eu vejo a Champs-Élysées sem carros assim. A última vez que estava assim, tão cheia de gente, foi durante a Copa de 1998”, afirmou um morador. Pais e crianças passearam no meio na avenida dos Champs-Élysees, uma das mais caras de Paris. “É uma boa forma de as pessoas poderem explorar a cidade em outra perspectiva. Geralmente os carros dominam as ruas, em vez das pessoas. Em uma cidade como Paris, onde pouca gente tem carro e está sempre cheia de turistas, faz sentido dar as ruas de volta às pessoas pelo menos um pouco”, disse outro pedestre.  Locais sempre bastante movimentados, como a praça da Bastilha, viraram paraíso para ciclistas. Com boa parte dos carros de Paris é movida a diesel, em março, uma nuvem espessa de partículas fez a cidade se tornar, mesmo que por instantes, a mais poluída do mundo. Ou seja, ter o pior ar do planeta.

           Mas o fato de "Um dia  sem carro" acontecer num domingo [ontem, dia 27] foi alvo de críticas de ambientalistas. A prefeitura parisiense, segundo eles, achou uma forma de não entrar em conflito com quem realmente usa diariamente veículos a motor. Em São Paulo, o Ministério Público tenta barrar a iniciativa de se fechar [nem que fosse uma vez a cada 30 dias, por exemplo, no primeiro domingo de cada mês] a Avenida Paulista. Claro que há fortes ingredientes políticos nessa história. Em 2016, teremos eleição municipal e a oposição busca "qualquer coisa " para falar mal do prefeito. A discussão aqui é outra. Enquanto as autoridades francesas e as entidades não-governamentais debatem um plano estratégico para uma "Paris inteligente e durável", aqui em São Paulo a questão é se a ciclovia é coisa de pequeno burguês ou não etc. Claro que São Paulo não é uma cidade com vocação para a bicicleta como têm muitas cidades europeias ou brasileiras, como Macapá, Joinville e outras centenas de cidades planas do país. Mas está mais do que na hora de discutir como São Paulo deverá andar no futuro. Antes que trave de vez.

Na beira do Rio Sena: só patins e bicicletas 
Ciclistas, triciclos e carrinhos de bebê: boa parte da frota de Paris é movida a diesel, o que gera alta poluição do ar

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