quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O RESUMO DA ÓPERA - SEMPRE ÀS QUINTAS

UMA LEITURA SEMANAL DOS JORNAIS - N2 - 08.10.2015

POR GEORGE ALONSO

A Rede de Marina já foi oficialmente registrada: candidata natural a ir ao segundo turno em 2018


Dilma e o inferno astral

E a pressão continua. Dilma  achava que, depois "de quase entrar" para o PMDB, cedendo as principais pastas às raposas, àvidas por controlar o grosso do dinheiro federal, ia ter sossego. Até chegou a dizer que todos tinham muito trabalho a fazer até 2018. Otimista, estava na posse dos novos ministros. Parece que o tiro saiu pela culatra. Esse é o problema de um governo fragilizado, com baixa popularidade e uma presidente sem qualquer carisma. Virou refém de saqueadores do Estado. É o que virou o PMDB e seus infindáveis grupelhos de ataque ao orçamento público -- e que atuaram nos governos FHC e Lula. Mais uma vez Dilma "ganhou perdendo" [ganhou fôlego se apequenando] e "perdeu ganhando" [dando espaço ao cancro da política nacional, o PMDB, em troca de uma estabilidade temporária ou fictícia]. Se acha que chega a 2018, terá ainda pela frente dois tribunais. Nos dois, se a decisão for política, Dilma saíra do Planalto como nunca imaginara: "pela rampa dos fundos". No Tribunal Superior Eleitoral: se houver revisão de uma decisão do próprio TSE que aprovou a prestação das contas da campanha de Dilma no pleito de 2014. Outra, no Tribunal de Contas da União, que condenou as pedaladas fiscais do atual governo, usadas para pagar programas sociais. Mas elas são diferentes daquelas dadas por Fernando Henrique Cardoso, quando precisou salvar bancos? Creio que não, por isso a tentativa de um terceiro turno ainda está em curso. De qualquer modo é preciso, em algum momento, dar um fim às pedaladas. 

Dilma e o pau-mandado

O "Mr. Pau-mandado" virou ministro da Ciência e Tecnologia. Ele vai representar no governo um saqueador contumaz, segundo dados fornecidos pela Suíça. "Filhote" de Eduardo Cunha, o deputado Celso Pansera saiu do anonimato ao ser acusado de retaliar o doleiro Alberto Youssef, que entregou à Justiça os quadrilheiros do petrolão. "Estou sendo intimidado na CPI da Petrobras por um deputado pau-mandado do senhor Eduardo Cunha", bradou o delator. O apelido "pau-mandado" pegou. Ele foi dirigente da UNE, passou pelo PT e migrou para PSTU. Depois, camaleão, trocou o trotskismo pelo cunhismo: assim deslanchou em 2014, virou deputado pelo PMDB. Até julho, dividia sua vida entre a política e a administração de um restaurante na Baixada Fluminense. O nome do restaurante é sugestivo: "Barganha". Disso o "Mr. Pau-mandado" e o seu criador têm mesmo ciência e tecnologia.

Nunca foi tão fácil

Em 2018, Marina Silva terá a sua grande chance. Vai poder desfiar o discurso da ética e ser a grande beneficiada dele -- PT e PSDB, que governaram o país durante mais de 16 anos, têm, como se diz na vida, "o bumbum descoberto" e as mãos sujas, quando se fala do assunto. Fora o desgaste natural de terem sido governo. Quem será o candidato do PT: mistério puro. Será que Lula, que já fez história, teria gás para colocar sua cabeça a prêmio. Já Alckmin, Serra e Aécio são conhecidos e foram derrotados nas urnas. Marina, ex-governo Lula e ex-ministra do Meio Ambiente, deixou do governo petista atirando contra justamente quem: Dilma, acusada de querer "derrubar a floresta". De ser contra a sustentabilidade, um dos pilares da nova política econômica moderna. Um dos pilares da campanha marineira.

Marina tem a vantagem de conseguir aglomerar parte do petismo envergonhado pela corrupção de parte seus quadros e parte do eleitorado tucano, cansado do "mais do mesmo". O problema é o que vai oferecer na política econômica. Que quadro iria herdar. A Rede, seu partido, tem nomes suficientes para governar? De novo falará em "coalizão dos melhores"? Será que o Brasil aguenta nova coalizão, e quem seriam os melhores? Melhor é garantia de boa gestão? O discurso da união nacional em um país "cindido", palavras dela, soa bem eleitoralmente, mas vai funcionar na prática, caso ela seja o único nome novo até lá?

O fato de ter carisma, de vir do povo, de ser um "Lula de saias" é bom e ruim. Bom, porque está ligada do ribeirinho do Acre ao operário do ABC. Mas ruim porque "uma Silva" que já foi ironizada por sua "neolinguagem" adjetivada, que pode reacender preconceitos. E não só dos que criticam os evangélicos. Marina não se deu muito bem quando pressionada. Reagiu de forma nervosa, demonstrou desconforto. De qualquer forma, nunca foi tão fácil ir a um segundo turno e vencer. Caiu na rede, agora é Marina, pelo menos por enquanto.

Empreiteiros corruptos: há os pró e os contra

"Dá nojo em pensar que somos governados por este poste!"
Anuar Caram, presidente de negócios públicos da Andrade Gutierrez
 "Fora, sapa com cara do Satanás"
Ricardo Sá, presidente da área de clientes privados da empreiteira
 "Minha cela, minha vida"
Clorivaldo Bisinoto, presidente da Andrade Gutierrez Construção, em mensagem com fotomontagem em que Dilma e Lula aparecem atrás das grades

Mensagens de texto trocadas por executivos da Andrade Gutierrez, investigados na Operação Lava Jato, mostram [acima] a torcida dos empresários pela vitória de Aécio nas eleições presidenciais do ano passado. As mensagens forma trocadas durante debate na TV Globo, em um grupo formado no Whatsapp. A postura é contrária à de diretores da construtora OAS que, conforme a Folha mostrou em julho, torceram efusivamente pela reeleição de Dilma. Durante a apuração dos votos, a vitória de Dilma levou os diretores ao lamento. "A vida vai ser dura...", comenta um dos presos  na Lava Jato. Outros executivos tentaram animar os demais. "Vamos em frente, a vida continua! Apesar dos desafios externos, estamos juntos no nosso projeto de termos uma AG [Andrade Gutierrez], de um futuro próximo muito bacana!", escreveu Sá.

Conclusão: Tudo gente fina. Quadrilheiros em lamúrias. Gente convincente e preocupada com o país, verdadeiros patriotas. Só falta a trilha sonora dos "Assaltimbancos" [públicos]: “Todos juntos somos fortes, estamos todos no mesmo barco e não há nada a temer”.

Respire fundo

Desde às 13h da segunda-feira (5), a opção "utilizar créditos" no portal da Nota Fiscal Paulista ficou indisponível. O governo estadual informou que o serviço será restabelecido "em breve". Segundo o governo, a interrupção do serviço ocorre ao menos duas vezes ao ano, sendo necessária para o processamento de dados, e não causa impacto nos valores acumulados pelo usuário. O programa devolve até 20% do ICMS recolhido pelo estabelecimento. É  um incentivo para que o consumidor exija a nota fiscal ao fazer compras. Ao informar seu CPF ou CNPJ, no momento da compra, o cliente pode escolher como receber os créditos e ainda concorrer a prêmios em dinheiro. Opa, mas a neopedalada tucana, pode?  

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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

DENGUE, 403 MORTES NA BATALHA PAULISTA*

Pixação em muro de São Paulo revela revolta contra a imprudência de parte da população e o descaso dos governos


        São Paulo, além de campeão de casos de dengue, é o Estado com o maior número de mortes pela epidemia: 403 pessoas [58% dos 693 óbitos em todo o pais, só nos primeiros oito meses do ano], O dado consta do novo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde.  Entre janeiro e agosto, a região Sudeste concentrou 68,5% das mortes, Outros Estados com número expressivo de óbitos são Goiás (67), Ceará (50) e Minas Gerais (47). Apenas Acre, Roraima, Sergipe e Santa Catarina não registraram mortes. O número de mortos pela dengue no país é 70% maior do que o registrado no mesmo período de 2014. Os dados colocam 2015 como o ano recordista em óbitos decorrentes da dengue desde 1990. O recorde anterior era de 2013, com 674 mortes.

      Desde a descentralização pelo Estado do combate e da prevenção, cabendo aos municípios essas tarefas, a dengue cresceu [leia mais no link abaixo]. E com receio que o quadro piore com a chegada do verão, como ocorreu neste ano, várias cidades do interior paulista estão antecipando as ações de combate ao mosquito transmissor da doença e a Sucen (Superintendência de Controle de Endemias), do governo estadual, contratou desta vez 500 agentes que podem atuar em qualquer lugar que registre alta incidência da doença.
     
      Catanduva, uma das recordistas em casos, criou "força tática" para eliminar o Aedes aegypti em áreas públicas e em casas fechadas. Ações de combate foram antecipadas ou não sofreram interrupção em Campinas, Rio Claro e São José dos Campos, que também estão no ranking das cidades com maior transmissão da doença. Com previsão de um mês de outubro mais chuvoso que a média em certas regiões, cidades líderes na infestação apostam em políticas variadas. Em São José dos Campos, a prefeitura lançará a campanha contra a dengue nos próximos dias – em vez de deixar para dezembro – e usará um drone para monitorar áreas onde os agentes não conseguem chegar. O equipamento já foi usado neste ano, mas terá a utilização ampliada. Outras ações incluem multas para quem impedir a entrada de agentes nos imóveis.
  
      Já em Campinas, cidade no topo do ranking de casos, a prefeitura elaborou pela primeira vez um plano de contingência. "Tivemos um ano avassalador, um tsunami sobre todo o Estado, e temos um cenário preocupante para 2016. É muito melhor cuidar de pequenos incêndios, que são os casos que têm surgido agora, do que de um incêndio enorme", disse Carmino Antonio de Souza, secretário da Saúde.

     As 15 cidades com mais casos da doença somam 303.556 confirmações autóctones (contraídas no próprio município), ou 51% dos 595.637 registros do Estado neste ano. Embora com apenas 2.077 casos, São Carlos também já faz ações preventivas. Campo Limpo Paulista, com 344 casos, estuda voltar a recorrer ao Exército.

     Se o excesso de chuva contribui para o mosquito se procriar, a seca pode levar ao armazenamento inadequado de água. Por isso, em Sumaré e em Marília a aposta é na distribuição de telas para proteger caixas-d'água e reservatórios sem tampa. Sete das prefeituras relataram o armazenamento inadequado como um dos motivos para a epidemia de 2015: São Paulo, Guarulhos, São José dos Campos, Americana, Rio Claro, Sorocaba e Marília.

     O prefeito paulistano, Fernando Haddad, sancionou lei que autoriza o ingresso forçado de agentes de combate à dengue em imóveis particulares. Segundo o texto, publicado no "Diário Oficial" do último sábado (dia 3), essa medida extrema será tomada em caso de recusa ou ausência de pessoa que possa permitir a entrada do agente na casa. O projeto, aprovado pela Câmara Municipal, é vago ao prever as situações em que o ingresso forçado será usado. Diz apenas que a medida será adotada quando "se mostrar fundamental para a contenção da doença" e observados "os princípios da proporcionalidade, razoabilidade e legalidade". A prefeitura diz que irá regulamentar a lei para deixar mais claras essas situações.
[Fontes: Agência Brasil e Folha] 

LEIA MAIS SOBRE A DENGUE 

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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

VOCÊ VIU? HARRY POTTER MORREU NO ALEMÃO


O PM dublador de "Harry Potter" na versão brasileira do filme foi morto por bandidos no Complexo do Alemão

            A realidade foi cruel. Na batalha do bem contra o mal, o mal venceu. Desta vez, pelo menos. O dublador do personagem Harry Potter no cinema, protagonista dos filmes baseados na série de J.K. Rowling, foi assassinado na quarta-feira da semana passada (dia 30) em confronto com traficantes. O dono da voz do bruxinho era o policial militar Caio César Ignácio Cardoso de Melo, que completou 27 anos dois dias antes de sua morte. Ele trabalhava na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Fazendinha, no Complexo do Alemão, uma das áreas mais perigosas do Rio de Janeiro.

        Melo patrulhava a localidade de Campo do Sargento, na comunidade Fazendinha, por volta de 11h, quando a sua guarnição foi atacada. Surpreendido, durante o tiroteio, ele foi atingido por três tiros, um deles no pescoço. Levado para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, morreu após quatro paradas cardíacas durante a cirurgia de emergência. Caio Melo dublou, além de Harry Potter, mais 20 personagens, segundo consta em uma página dedicada a ele na Wikipedia. Entre eles, o personagem de Daniel Radcliffe no filme "December Boys", o TK do desenho animado "Digimon", o Diego da série "Rebelde" e Sokka em "Avatar: A Lenda de Aang".

        A escritora J.K. Rowling comentou a tragédia no twitter: "Desesperadamente triste de ouvir que Caio César, a voz brasileira de Harry Potter, morreu aos 27 anos. Minhas condolências para a família". Nas redes sociais, páginas dedicadas a dubladores lamentaram a morte. "Acabamos de receber a triste notícia que o dublador Caio Melo, que também exercia a profissão de policial, morreu", postou no dia do assassinato a página Dubladores Brasileiros. O site Dublapedia Brasil publicou uma nota no Facebook, assim como a página Daily Potter News, dedicada aos fãs do bruxo: "Levantem suas varinhas, potterheads", pedia o texto em homenagem a Caio Melo, dizendo que ele realizou "o sonho de ser policial para defender as pessoas, como o personagem que marcou sua carreira no cinema". Em nota oficial, a Warner Bros. Pictures Brasil enalteceu o "imenso talento" que contribuiu para o sucesso da franquia no país. "Foi um prazer ter Caio na família Warner Bros. Pictures Brasil em todos estes anos. Ele se tornou a voz de Harry Potter para uma geração de fãs e estará sempre em nossos corações", disse a nota.

          A relação Polícia Militar x sociedade brasileira é complexa e contraditória. Depois da ditadura militar, embora metade da população diga, segundo o Datafolha, que "bandido bom é bandido morto" [que a eliminação física do mal seria suficiente para, se não garantir segurança, vingar a sociedade], grande parcela teme ou desconfia da polícia. No ano passado, pelo menos 3.022 pessoas foram mortas pela polícia no país, contra 398 PMs, mortos por bandidos. Ontem de manhã, segunda-feira [5 de outubro], um PM foi morto e teve a motocicleta roubada no Rodoanel Mario Covas ao ser abordado por dois marginais perto do pedágio em Carapicuíba, na Grande SP. E quase ninguém ficou sabendo, porque ele não era o Harry Potter. No Rio de Janeiro, em outro tiroteio no Alemão, Deyverson Max da Silva Avelino, de 20 anos, morreu baleado. Segundo a polícia, ele era traficante. Os PMs envolvidos no tiroteio prestaram depoimento e tiveram as armas levadas para perícia.

          Na batalha entre o bem e o mal, parece que apenas casos de bandidos famosos ou de supostos bandidos mortos [ou seja, inocentes sem passagem pela polícia] e de maus policiais [que fraudam tiroteios e matam por prazer] ganham notoriedade e chocam o país. Já bons policiais morrem anônimos, sem choro nem vela, exceto se for "um personagem de cinema". E esse filme se repete todos os dias, com baixa audiência. 

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domingo, 4 de outubro de 2015

UMA IDEIA ANIMAL: ANJOS, PRIVILÉGIO E CUÍCAS

    
Pastora alemã, Lara [1967 -1979]: morte na véspera do réveillon



     30 de dezembro de 1979: Lara, a pastora alemã que cuidei, convivi e conversei durante 12 anos, morreu. O coração dela já não estava funcionando bem há algum tempo, e para não sentir dor no verão ficava deitada no piso frio da garagem, na sombra, olhando para o portão de casa. Na véspera do réveillon, cheguei do trabalho e ela não estava mais lá. Chorei. Melhor, choramos, eu e meus irmãos. Aquele réveillon realmente se tornara inesquecível.

        Até agora ela está na minha memória, e sua foto está no meu "hall da fama", a parede de casa dedicada a imagens da família e parentes. Sou daqueles que acha que o amor-companhia de um cão é algo tão precioso que a prisão é [às vezes] pouco para quem tortura ou maltrata um animal tão generoso -- aliás, corrigindo, dos animais em geral. Digo isso porque gosto muito de ler artigos sobre de cães e adoro ver na TV a cabo documentários sobre bichos selvagens e também os "pets". Foi quando me deparei na internet com a notícia de uma suposta bondade proposta por um vereador de Curitiba (PR).
     
       29 de setembro de 2015: Pré-candidato à prefeitura daquela capital, o Professor Galdino (PSDB) apresentou na terça-feira passada um projeto que institui um dia de folga no trabalho ao servidor municipal quem perder seu animal de estimação. Um dia de luto em caso de morte de seu bichinho. Segundo o projeto, apenas os donos cujos animais são microchipados e com cadastro na Rede de Proteção Animal poderiam usufruir da folga, facultativa e sem prejuízo financeiro.

      O vereador Galdino, conhecido por ser "defensor de causas animais", disse que além de reconhecer o vínculo entre a pessoa e seus animais "o projeto estimula a microchipagem" dos bichos. [Será que um amigo, parente ou ele próprio é sócio de uma empresa do ramo? Ou é um estímulo desinteressado? A suspeita pode ser indevida, mas minguém averiguou.] O microchip é um dispositivo colocado sob a pele no dorso do animal e traz informações sobre o bicho e seu dono, com o intuito de facilitar a localização em casos de perda ou fuga. No projeto, o vereador justificou a medida da seguinte forma: “Os animais são anjinhos que Deus colocou em nossas vidas, vamos sair de vez do antropocentrismo, com o homem no centro do Universo, e entrar no biocentrismo, em que todas as formas de vida são importantes.” A rigor, proposta altera um dos artigos do Estatuto dos Funcionários Públicos Municipais de Curitiba, que dá oito dias consecutivos de faltas devido ao falecimento de cônjuge, companheiro, pais, filhos, avós, netos e irmãos. Para a morte de  sogros, enteados e cunhados, a licença pode ser de dois dias.

     Embora pareça de boa intenção, na verdade o distinto vereador está defendendo mais uma regalia ao funcionalismo. E pior, em vez de promover a defesa dos animais, pode estar incentivando a matança de cães e gatos. Por que só os servidores públicos municipais podem ter um dia de luto? [e o resto da população que trabalha?]. E quem tem cobras e lagartos, passarinhos e peixinhos de aquário? Pode tirar um dia de luto, se um deles morrer?  E se morrerem dois ou vários bichos. O servidor público curitibano vai ter um dia para cada bichinho morto? Outra coisa a temer é a maldade humana: alguém é capaz de arrumar bichos só para arrumar folgas remuneradas. E assim virar um "matador em série" de cães e gatos, deixando aflorar o psicopata que haveria dentro desse eventual funcionário público.

      Até hoje tenho gravada na memória uma imagem de horror de meados dos anos 1960. O pessoal da carrocinha correndo atrás de um bando de cachorros e laçando-os no final da Avenida Santo Amaro, pouco adiante da estátua gigante do bandeirante Borba Gato. Do portão de casa, fiquei olhando aquela cena, aflito. Depois de esganiçar na laçada, o bichinho era arremessado para dentro do caminhão fechado, semelhante ao de um frigorífico. Quando perguntei para onde iriam, fiquei sabendo que seu rumo era o canil municipal. E, se ninguém reclamasse, virariam sabão. Aos 7 anos -- e com a Lara minúscula em casa, dormindo numa caixa de sapato cheia de panos para não sentir frio -- fiquei chocado e paralisado com a notícia. Hoje, não é mais assim, segundo uma amiga que faz trabalho voluntário para adoção no Centro de Zoonoses paulistano. Cães e outros animais sadios não podem ser sacrificados. Há cerca de 15 dias, havia uns 300 cães lá esperando um dono.

    Sempre desconfiei dos espetinhos de carne vendidos em porta de estádio, conhecidos por "churrasquinho de gato" ou "filé de cachorro". E também não gosto de saber que tamborins e cuícas eram feitos com couro de gato no passado, por sua resistência maior. Não é lenda, não. Não é mais assim hoje, dizem [porque há opções melhores e mais baratas], mas nem gosto de pensar no assunto. E se depender de mim, senhor Galdino, farei campanha contra esse projeto e também contra a sua candidatura. Uma vez que o senhor parece fazer mesmo juz ao significado do nome assina: "autoritário". Se como vereador, na semana do dia mundial dos animais [4 de outubro], o senhor tem ideias como esta e defende privilégios, imagino o que não faria como prefeito de Curitiba.  
   

AUSÊNCIA SENTIDA - HISTÓRIAS DE CAMPANHA

1996; Maluf durante visita ao Palmeiras, no dia do aniversário do tradicional clube de futebol, em São Paulo
     
          Durante eleição para prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, decidiu visitar a Sociedade Esportiva Palmeiras no aniversário do clube, em 26 de agosto de 1996. Ele queria eleger Celso Pitta [1946-2009] a todo custo: enquanto o candidato oficial gravava programas para a TV, ele fazia sozinho carreatas pelas ruas da cidade, sempre dizendo "se Pitta não for um bom prefeito, não votem mais em mim". Claro que queimou a língua e se arrependeu: depois de eleito a criatura virou-se contra o criador e eles romperam relações. A gestão Pitta acabou mal avaliada pela população ao final do mandato, segundo pesquisas -- pipocaram denúncias de corrupção feitas até pela ex-mulher Nicéa [que desejava ser secretária do Abastecimento, mas não teve a pretensão atendida pelo então marido prefeito]. Pitta é até hoje [nos índices de pesquisas de fim de mandato] o pior prefeito paulistano.
          Bom, voltemos ao dia 26 de agosto de 1996. Um dos rivais do afilhado político malufista era José Serra, tucano e notório palmeirense. Ele também ia visitar a sede do time de coração no mesmo horário. [Sobre Maluf, certa vez disse que "na infância" torcia para o Verdão, mas que também era são-paulino. Pelo que entendi, virou a casaca da adolescência em diante.] Estava na redação da Folha, eram 20h, e imaginei um encontro eventual dos dois, Serra e Maluf em campanha pró-Pitta, no clube naquele conhecido beija-mão da política e naquele igualmente conhecido anúncio de promessas. Além disso, podia ocorrer entreveiro entre correligionários dentro ou perto do Palmeiras.

         Como eu havia sido escalado pela Folha para ser o "carrapato" do Pitta na campanha, pensei: "Vou ganhar hoje o dia de amanhã, se houver por acaso esse encontro". Saí da redação, e com meu próprio carro tratei de dar uma passadinha lá antes de ir para casa. Nada aconteceu. Quando cheguei [da Folha até lá era um pulinho], Serra tinha antecipado a visita para evitar Maluf, que havia acabado de chegar e estava com dirigentes do clube. Fiquei na entrada do Palmeiras, frustrado. Até que ele apareceu, sempre simpático e respeitoso. De repente, ele me pegou pelo braço e disse, alto o suficiente para quem quisesse ouvir, naquele tom de voz que fez a fama de imitadores e humoristas: "Meu caro George Alonso, há dois dias você não nos acompanha, há dois dias a Folha não fala mal de mim!". Houve gargalhada geral: minha, dele e dos assessores. Um assessor veio e me disse, rindo, aí bem baixinho: "Ele gosta de você, senão não faria essa brincadeira". Ésse instante foi flagrado pelo fotógrafo da campanha malufista (foto abaixo) e me presenteado no dia seguinte no comitê. Dou risada do episódio até hoje. Nunca tive problemas com Maluf enquanto fui repórter, sempre me recebeu com respeito, embora não fosse seu eleitor.

        Nessa mesma campanha, eu devolvi a brincadeira. Durante carreata, Maluf apontou para um outdoor de Serra e me perguntou no mesmo tom: "Meu caro George Alonso, qual é a careca mais bonita, a minha ou a dele?". Por um segundo houve silêncio no caminhão de som. Olhei para o cartaz e respondi: "A minha, prefeito!" Nova gargalhada geral.

Leia outra histórias de campanhas 

TORCEDOR DA LUSA -- AMIN APRESENTA ELEITORES
SAMBA NO PÉ - COVAS NA ROSAS DE OURO

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SAMBA NO PÉ - HISTÓRIAS DE CAMPANHA

1988: Covas na quadra da escola de samba Rosas de Ouro, reduto tucano no mundo dos bambas paulistanos

        Em 1998, a eleição estadual foi renhida. No primeiro turno, o governador Mario Covas, tucano em busca da reeleição, foi derrotado de forma fragorosa por Paulo Maluf, por 32,2% contra 22,9%, e com só 74 mil votos à frente da 3ª colocada, a petista Marta Suplicy [22,5%]. Até hoje os petistas se queixam das pesquisas, que não davam essa diferença mínima entre Covas e Marta [equivalente à lotação atual do estádio do Morumbi], e dos tucanos, por terem feito campanha pelo "voto útil" já no primeiro turno, sugerindo que só Covas seria capaz de vencer Maluf no 2º turno.

       Na antevéspera da eleição, sexta-feira, 2 de outubro, por exemplo, o Instituto Datafolha divulgou o seguinte resultado de pesquisa sobre intenção de voto dos paulistas: Paulo Maluf, 31%; Francisco Rossi,18%; Mario Covas,17%; Marta Suplicy,15% e Orestes Quércia, 6% . O resultado das urnas mostrou um erro de 7,5% em relação aos votos de Marta. Rossi é que estava atrás na faixa dos 15% [dentro da margem de erro]. O "voto útil" em Covas, então, tirou a petista do segundo turno, já que na realidade ela havia, no mínimo, ultrapassado o conservador Rossi. Mas isso não aparecia na pesquisa Datafolha.
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        No segundo turno, Covas -- que tinha baixos índices de aprovação em relação ao seu primeiro mandato -- se reelegeu governador paulista a partir de um mote único: "ética na política" contra "rouba, mas faz". Colou, claro, e Covas obteve 55% (9,8 milhões de votos) e Maluf ficou com 44% (7,9 milhões de votos). Uma virada espetacular, olhando para o placar do primeiro turno. Foi como se todos os eleitores de Marta, Quércia [sepultado eleitoralmente ali] e 30% dos que votaram em Rossi tivessem descarregado suas fichas no tucano.
        Nesse tempo, trabalhava na sucursal paulista do ainda influente Jornal do Brasil [o mesmo que pouco mais de uma década antes, em manchete de capa, dizia que Erundina crescia e podia vencer em São Paulo, furo que fez se moverem seus concorrentes nacionais, à época só Folha e Estadão]. Mal administrado, o JB já passava por dificuldades financeiras, não depositava o FGTS, mas ainda tinha um punhado de bons colunistas e mantinha uma luxuosa, ainda que esvaziada, sede no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, onde hoje fica uma academia de ginástica.

        O ambiente de trabalho, apesar de tudo, era o melhor possível para os padrões das redações dos grandes jornais. Só havia um carro de reportagem. Era uma loucura, pegava-se metrô ou táxi para fazer as entrevistas. Era como um grande time de futebol que perdera alguns craques, mas os que estavam ali vestiam a camisa com garra, talvez para compensar. Havia muita liberdade para sugerir pautas. Até trabalhei num domingo de folga para escrever texto de uma página com o bastidor da aliança Lula-Ciro que seria anunciada no dia seguinte, ainda no primeiro turno do pleito que reelegeria Fernando Henrique Cardoso sem segunda rodada de votação. O Plano Real era um sucesso, moeda forte e inflação baixa. Pouca gente sabia [ou imaginava] que a paridade com o dólar iria acabar em janeiro. O país sofria um forte ataque à moeda e milhões [depois bilhões] de dólares estavam sendo diariamente retirados daqui por especuladores e investidores, sem que o governo conseguisse defender o real. Eu havia voltado de um ano sabático no exterior, estava muito feliz e irradiava essa leveza, especialmente às mulheres. Não foi por acaso que [embora tardiamente aos 42 anos] me casei com a mulher com quem teria o adorável Thiago, hoje um garoto com 7 anos de vida.

         Por que estou contando isso? Porque me sentia tão bem que nem sair para trabalhar numa sexta-feira à noite me tirava o bom humor. Foi assim que, no segundo turno, fui cobrir a visita de Covas a uma escola de samba paulistana, a Rosa de Ouro, na zona norte, conhecido reduto tucano no mundo dos bambas. O governador candidato chegou acompanhado pela primeira-dama, dona Lila. Assim que foi anunciada a sua presença, a bateria acendeu a quadra. De repente, dona Lila cedeu ao arrepio dos tambores e começou a sambar, e bem. Olhei para Covas e rindo disse: “Olha lá, dona Lila está mostrando samba no pé”. “E o senhor, não vai fazer a corte?” insisti. O candidato, rindo bastante, colocou a mão no meu ombro e me disse: “Só vou se você mostrar também sua ginga”. Repiquei: “O povo está esperando, governador. O senhor é o candidato”. Gargalhamos, mas vou ficar devendo o nome do fotógrafo que registrou a cena. Até que uma porta-bandeira da Rosas, uma mulata de cair o queixo, chamou-o para o meio da quadra. Sorrindo, Covas resistiu ao convite bravamente e ficou devendo ali o que mostrou nas urnas: um incrível jogo de cintura eleitoral. 

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O RESUMO DA ÓPERA - SEMPRE ÀS QUINTAS

UMA LEITURA SEMANAL DOS JORNAIS - N1 - 02.10.2015

POR GEORGE ALONSO



MONOTRILHO DE SP NÃO TINHA PROJETO NEM ORÇAMENTO...

Agora está explicado porque parece obra parada. A obra da linha 17-ouro, um dos monotrilhos de São Paulo, não tinha projeto básico e nem orçamento quando foi licitada, o que contraria a lei. É o que constatou auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União), aprovada ontem, quarta-feira (30). Um trecho da obra, de oito quilômetros, deveria ficar pronto para a Copa de 2014, ligando Congonhas ao Estádio do Morumbi, inicialmente. Mas o projeto só estará terminado entre 2016 e 2017. O custo total do projeto de 18 quilômetros, que era de R$ 3 bilhões já passou para R$ 5 bilhões. Só, a tá? E ninguém vai investigar?

O JOGO DE FORCA CONTINUA

Com a corda no pescoço, Eduardo Cunha se nega a falar sobre contas no exterior. Suíça envia documentos de supostas contas secretas do deputado do PMDB e familiares. Com a corda no pescoço, Dilma escuta Lula e faz alterações nos ministérios para atender o PMDB. Acordão sacrifica ministro da Educação, Renato Janine, e troca Mercadante por Jacques Wagner na Casa Civil. E uma pesquisa CNT/Ibope publicada pelo Estadão mostra reprovação ao governo estável em 69% e bom/ótimo em 10%. Cunha rechaça 3 pedidos de impedimento port falta de provas. Quem pode mais, chora menos. E nós, com a corda no pescoço, vamos ao supermercado e nada mudou...10% lá tb ou mais. Não só a política vai decidir essa parada... seja por impedimento seja nas urnas. Preparar-se para o pior: como diria Raulzito, vai subir a gasolina e o preço do horror, vai cair o nível mental, o preço do caos e...

ROTA 66 ASSASSINA - CRIME DO ESTADO E A FARSA DA INVESTIGAÇÃO

O coronel Erasmo Dias contou tudo, mas pediu para a confissão ser publicada após sua morte. A história de três jovens mortos sem reagir pela Rota durante a ditadura militar, nos anos 1970. Uma prática corriqueira da polícia [de forjar morte por resistência à prisão, com tiroteio] feita contra filhos da classe média alta teve repercussão enorme em São Paulo, mesmo com a censura. Os muros dos Jardins amanheceram pichados como protesto: "Rota 66 assassina". A Rota até precisou mudar a numeração dos carros.  ROTA 66 - A CONFISSÃO  [do Estadão]

AS MOTOS E O TRÂNSITO PAULISTANO
[E QUANDO A FISCALIZAÇÃO VAI COMEÇAR?????]

Líder em acidentes, motos recebem só 4% do total de multas em São Paulo. As motos representam 13% da frota paulistana e seus ocupantes são metade dos feridos em acidentes de trânsito na cidade. Originalmente, o código de trânsito de 1998 proibia as motos entre as faixas, mas o artigo foi vetado pelo então presidente FHC. Os dados colocam a moto como o principal gargalo da gestão Fernando Haddad (PT) no combate à violência do trânsito. Hoje a diferença entre a participação das motos no total da frota e no total das multas é a maior entre todos os tipos de veículos e se mantém no mesmo patamar desde o início da gestão, segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Para especialistas, é preciso rever a fiscalização para reduzir mais as mortes de condutores e garupas em motos. A queda no primeiro semestre deste ano foi de 14%, índice menor do que o de outros tipos de usuários. De janeiro a junho, morreram 89 ocupantes de motos contra 85 de carros, por exemplo.
"A moto hoje é o grande problema do trânsito de São Paulo. Uma grande parcela dos motociclistas, infelizmente, ninguém mais segura. Andam acima da velocidade, na contramão, furam o semáforo vermelho", diz Horácio Figueira, mestre em transportes pela USP. Uma pesquisa coordenada por ele e executada pela CET no início do ano apontou que os motociclistas são, proporcionalmente, os que mais cometem infrações na cidade. Nas marginais, a participação desses veículos em acidentes chega a 83%. Figueira defende que a prefeitura proíba o uso do corredor entre os carros para as motos. "Há base legal para multar, mas a CET não multa porque não quer", diz. O engenheiro diz que outros artigos da lei são desrespeitados quando se anda no corredor: ultrapassagem pela direita, desrespeitar a distância lateral e circulação fora da faixa própria. Em 2007, após alta nas mortes, a CET chegou a anunciar que faria essa fiscalização, mas ideia não foi adiante.

[Os motociclistas dizem que isso acabaria com a mobilidade da moto. Mas do jeito que está seria melhor, menos trágico fisicamente; embora economicamente possa ser outra tragédia, com desemprego em massa e oferta menor de serviços de entrega].

Para o engenheiro Eduardo Vasconcellos, consultor Associação Nacional de Transportes Públicos, a redução dos acidentes passa por uma maior fiscalização do excesso de velocidade e por medidas que impeçam que os motociclistas circulem perto dos outros veículos. "Motos são mais vulneráveis por uma questão física, muito mais leves. Onde circulam ao lado de veículos mais pesados, deveria haver um tratamento especial." A gestão Haddad reconhece dificuldades para fiscalizar, mas diz estar tomando medidas, como o uso de radares portáteis nas marginais.
[resumo da Folha]

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