terça-feira, 15 de setembro de 2015

MULHER COM CELULITE É MAIS LEGAL

Há muito mais graça e verdade na mulher da esquerda do que na da foto à direita -- a mesma mulher com photoshop

          Mulher sem celulite, não é mulher. É modelo, e modelo não é mulher, é manequim, borracha pura, sem sal e graça. Nas últimas décadas, nem de borracha são. As modelos viraram mulheres de pele e osso, quase sem recheio e com fortes tendências suicidas -- porque atingem metas de peso e massa corporal graças a atos de anorexia e bulimia. Isso deixa ainda mais cristalina a minha opção. Celulite sim! É bom pra mim!, no ritmo dos Titãs. E saudável para elas. Viva a celulite, fora o photoshop. viva sem retoques, prática comum em revistas como a antiga Playboy, dedicada ao público masculino e que completou 40 anos em 2015 [e estava ameaçada de fechar, mas não fechou]. Suas páginas fizeram história ao mostrar muita mulher famosa nua ou seminua em seus ensaios de capa. Vendia como água, tinha anunciantes de produtos sofisticados e a cada mês gerava expectativa nas bancas.

         Lembro-me, porém, que no final dos anos 1970, quando eu estava na flor da idade, aos 19 anos, nada mais chocante foi ver o que fizeram com a atriz Beth Faria, capa da revista quando já tinha perdido, claramente, o viço da juventude. Não havia photoshop, a turbinada geral era feita no braço mesmo. Sobre uma foto no paste-up, com várias folhas de seda, havia marcações: "Tira esse pêlo", "some com a pinta, apaga aquelas rugas, disfarça as estrias ali", "esssa baita celulite dá demissão por justa causa" e frases mais pesadas e jocosas sobre o que pessoal da Arte deveria fazer, usando de todos os recursos possíveis, com pincéis e tintas, para "endireitar" a moça. Cada folha de seda se referia a um ou mais pedidos de retoques, e tinha as assinaturas de quem pediu, de quem fez a "operação" e de quem conferiu. O resultado foi, evidente, uma outra Beth Faria, nua ou seminua, que faria qualquer um dizer "como ela está bem-conservada". Os caras eram artistas mesmo. Os programas de computador atuais apenas facilitaram esse trabalho, tornando-o mais rápido e menos exclusivo: agora qualquer criança, com o mínimo de habilidade e algum treino, faz um retoque numa foto em casa.

         Às vezes me pergunto, porque tanto sofrimento com o inevitável. Claro, todo cuidado com a saúde é bom, e todo cuidado com a beleza é saudável, dentro de limites. Mas a dimensão da coisa só fui perceber quando uma amiga de longa data comentou, em tom de brincadeira. "Minha celulite, Minha Vida". Eu disse até que ela acabara de criar um bom slogan e nem precisava de verbas do PAC. Ela emendou: "Não é preciso mesmo de incentivos do governo, é só se atracar com chocolates, refrigerantes e hormônios e a gente entra no 'programa'". Uma outra amiga, também de outros e saudosos carnavais, apontou para outro ângulo do dilema."Você diz isso porque é homem, duvido!", revelando a pressão do padrão estético, que a todo momento exige tudo durinho e lisinho na mulher. O que na prática "enlouquece" qualquer moça. Basta ver os anúncios "salvadores" e as reportagens redentoras apoiadas em declarações médicas$$$ em profusão. Como se nota, o novo messianismo não mexe só com a alma. "10 mandamentos contra a celulite", "Dê um basta...", "Tratamento natural resolve a celulite" e por aí vai. Todos contra a "pele casca de laranja que atormenta as mulheres". Neste caso seria preciso, sim, de algum investimento, de um PDC [Plano de Desaceleração da Celulite]. Antes que me descasque e descarregue toda sua ira sobre mim, a expressão "pele casca de laranja" é usada pelos anunciantes de soluções mágicas.

         Há quem vá dizer que gosto de mulher com celulite porque as mulheres [implicitamente mais jovens] que não têm essa "disfunção estética", palavras dos textos messiânicos, não me querem. Ok, sou um [des]respeitável senhor, que ultrapassou a barreira dos 50, mas aprecio mulher normal, com alguma celulite e -- outro tabu -- seios com caimento natural. É intolerável seios meia bola de futebol, ou meio capacete. Que pelo menos turbine com moderação, Não gosta da minha predileção, da minha calvície ou de minha leve barriga. Me esqueça. Se gosta, tire proveito, se puder. Há outros homens que compartilham essa mesma convicção. Não posso me queixar, há mulheres, muitas mesmo, que reagem assim: "Ai, que bom seria se todos os homens pensassem assim" [não, não sou e nem me sinto privilegiado]. Agora se você está me achando um chato, pare por aqui, porque sobre fraude a coisa vai ficar bem mais pesada a seguir.

História oficial

       A arte de retocar fotos começou, porém, com objetivos muito mais sérios e claros, bem antes das revistas masculinas do século passado ficarem famosas ao transfomarem as mulheres em objeto de desejo. O livro "O Comissário Sumiu", de David King, mostra como a fotografia era retocada na Rússia de Josef Stalin (1878-1953). As pessoas que caíam em desgraça [que ele via como inimiga ou uma ameaça pessoal ou política] durante seu governo mão de ferro na antiga União Soviética, de 1920 até sua morte, simplesmente eram apagadas das fotos oficiais [além de serem presas e até mortas]. Claro que tratava-se de uma tentativa de falsificação da história, que felizmente não vingou. O livro revela vários casos -- até mesmo quando o "desaparecido" numa foto oficial é "ressuscitado" pelo ditador e volta a constar da mesma imagem. Não foi o caso de Nicolai Yezhov. Preso em 1939, foi fuzilado em 1940. Na fotografia abaixo à esquerda, por exemplo, aparecem Voroshilov, Molotov, Stalin e Yezhov caminhando à beira do canal Moscou-Volga, construído pelo trabalho forçado de presos do regime comunista, com um elevado número de mortes. Depois, Yezhov desaparece da mesma foto. Em 1953, morre Stalin, mas não stalinismo. Em 1956, Nikita Khrushchev, seu sucessor, disse que Yezhov era alcoólatra e viciado em drogas, e que "teve o que mereceu".

Stalin (acima) com Nicolai Yezhov à beira do canal do Volga; ao cair em desgraça, Yezhov some da foto oficial

        O estilo de Stalin governar está expresso em pelo  menos duas frases do déspota genocida: "As ideias são mais poderosas do que as armas. Não deixaríamos nossos inimigos ter armas, por que deveríamos deixá-los ter ideias"; e "A morte é a solução para todos os problemas. Nenhum homem, nenhum problema".

        Ah, em tempo: que nenhuma mulher tenha infeliz ideia de abraçar o pensamento de Stalin em relação à celulite: "Nenhum homem, nenhum problema". Não achei a menor graça, tá?

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REFUGIADOS: PAÍSES EUROPEUS FECHAM A PORTA

Hungria: novo muro da vergonha na fro nteira com a Sérvia
                                                        [versão atualizada em 15 de setembro]

        A Hungria ergue uma cerca de 176 quilômetros na fronteira com Sérvia para barrar a onda de imigrantes ilegais, a maioria deles refugiados da guerra civil na Síria. E a partir de hoje [15 de setembro] uma nova lei torna a imigração ilegal um crime, com pena de até 3 anos de prisão. A construção de uma cerca semelhante à existente entre os Estados Unidos e o México foi acelerada depois que a polícia húngara deteve um número recorde de 3.321 refugiados um um único dia, quarta-feira passada [dia 9]. Mais de 175 mil imigrantes já entraram na Hungria neste ano com o intuito de atravessar para a Europa Ocidental. A alguns metros do alambrado com cerca de 4 metros de altura, haverá ainda uma outra barreira que lembra os tempos da Guerra Fria: uma espiral de arame farpado, para facilitar a chegada da patrulha em caso de tentativa de furar o bloqueio. Pela nova lei da Hungria, se houver esse tipo de tentativa e se o imigrante portar arma de fogo, a pena poderá ser de 5 anos de prisão. Para traficantes de gente, a pena poderá chegar a 20 anos de cadeia. 

          Sob governo conservador, a Hungria é um dos países que mais se queixa da entrada ou da passagem de imigrantes ilegais em geral e refugiados sírios por seu território, que têm como objetivo chegar à Áustria e à Alemanha. Uma das cenas mais deprimentes divulgadas pela internet foi a de um operador húngaro de TV derrubando com "chinelas", "rasteiras" e chutes crianças refugiadas e um pai com criança no colo durante tumulto envolvendo imigrantes ilegais e tropas de policiais na fronteira.
  
         A pressão migratória também levou a Dinamarca a endurecer as leis. O governo colocou anúncios em quatro jornais libaneses informando que os apoios sociais para os novos migrantes foram reduzidos em “até 50%” e que o reagrupamento familiar não é autorizado durante o primeiro ano para os titulares de uma autorização de residência temporária. A campanha alerta ainda que, para ficar na Dinamarca, é preciso falar e compreender dinamarquês e que os que não tiverem autorização serão repatriados. Em Copenhague, a ministra responsável pela pasta da Imigração e da Integração, Inger Stojberg, da ala à direita do partido liberal Venstre, disse que com a campanha “pretende informar objetivamente e com sobriedade” as regras dinamarquesas. A Dinamarca recebeu cerca de 15 mil pedidos de asilo em 2015, quase o dobro dos registrados no ano passado.

      Se a difícil "porta" pelos Balcãs se fechar, restará então aos refugiados de toda ordem o caminho pelo norte da África, que tem sido muito mais perigoso e fatal, rumo à Itália, pelas águas já ensanguentadas do Mar Mediterrâneo, com naufrágios sucessivos de"embarcações" precárias e superlotadas. Ou ainda, com alguma sorte e olhar complacente do governo turco, atirar-se no Mar Egeu, na tentativa de alcançar a "benevolência" grega. Boa sorte, bom destino. Como diria Stalin (1878-1953), o ditador russo, "a morte de um homem é uma tragédia, a morte de milhões é uma estatística".


Leia mais sobre a crise migratória 

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sábado, 12 de setembro de 2015

QUAL É O PRAZER?


Puma: felino salvo pela nova lei contra a caça "esportiva" na Costa Rica

          A expressão caça "esportiva" diz tudo: pelo prazer de matar. Não sei qual prazer, dá um videogame ou um simulador para esse pessoal, talvez gozem nas calças. Porque na verdade sempre é uma covardia, além de um crime contra o planeta e a humanidade. Uma coisa é matar para se defender ou ainda, por exemplo, matar espécies invasoras que estão predominando e extinguindo um ecossistema, como as cobras gigantes pítons na Flórida [que foram levadas para os Estados Unidos como "pets" e depois, abandonadas na natureza pelos donos, viraram praga]. Outra é entrar na mata cheio de armas e munição, acompanhado por capangas e guias, para atirar num felino em seu habitat, com o único intuito patético de exibi-lo como troféu na parede da sala, ou inteiro no meio de um salão ou numa ridícula vitrine, com o uso das técnicas de empalhamento ou da taxidermia.

        A Costa Rica, um dos países com maior biodiversidade [5%] do mundo e florestas preservadas, foi o primeiro [e é até o momeno o único] país latino-americano a proibir a caça comercial e "esportiva" de animais silvestres, como de grandes felinos [puma e jaguar], em seu território, além do tráfico e da posse qualquer tipo de bicho silvestre como mascote -- o famoso "animalzinho de estimação". A medida foi aprovada pelo Congresso há cerca de três anos. E funciona. A Costa Rica mantém uma legislação avançada de defesa da natureza desde os anos 1970, quando criou uma rede de parques nacionais que ocupa até 26% do seu território, e 1995, quando instituiu em todo o país o Sistema Nacional de Áreas de Conservação. A lei prevê multa de até US$ 3 mil [cerca de R$ 12 mil] e prisão de 2 a 4 meses, dependendo do tipo de animal silvestre abatido. Quem mantiver animal silvestre em cativeiro, como macacos, pode receber multa de US$ 600 a US$ 1,2 mil [R$ 4,8 mil], além da apreensão do bicho de estimação. Uma das principais fontes de renda do país atualmente é o turismo ecológico. A lei atende também a situações específicas, permitindo a caça com fins científicos, para subsistência e para eventual  necessidade de controle populacional das espécies -- incluindo no caso a pesca.

        Claro, não está sendo fácil, com 600 guardas florestais vigiar 13,2 mil quilômetros de áreas protegidas. Até com o dobro de guardas não seria tranquilo. Sempre há alguém a fim de burlar, e alguém a fim de se vender. Mas a lei que foi aprovada no Congresso partiu de iniciativa popular, recebendo mais de 177 mil assinaturas, e teve apoio da maioria dos partidos. O número de assinaturas em apoio ao projeto equivale a 3,7% da população do país, estimada em 4,7 milhões, em 2014.

       E os circos estão proibidos de usar animais silvestres. Afinal, a vida não é mesmo um circo.

       
     


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terça-feira, 8 de setembro de 2015

E AÍ SURGIU A MULHER LEGO


             A internet criou costumes inusitados e rapidamente tornou obsoleto alguns de seus ícones de uso doméstico mais conhecidos. A multiplicação das salas de bate-papo e as conexões cada mais fáceis e acessíveis por aplicativos como messenger, skype e whatsapp tiveram de imediato um efeito devastador: a morte prematura do e-mail como forma de contato pessoal. E-mails mediam hoje basicamente conversas comerciais e de negócios. Funcionam como uma garantia formal, ou nem isso.

           Com a rede de computadores surgiram também aos borbotões os tais sites de relacionamento -- aquela coisa difícil entre seres humanos, seja hetero, homo, bi, tri ou pan e afins ou simpatizantes. Nesses sites habitam milhões de pessoas, homens e mulheres, estreantes, debutantes, solteiros, casados, separados, divorciados e viúvos, de 18 a 99 anos. Eles "habitam" porque parecem estar sempre ali, como se os sites fossem um instrumento extremamente necessário rumo à felicidade no mundo moderno [veloz e sem tempo para flerte nos bares e na vida propriamente dita], um instrumento sempre à mão quando um relacionamento acaba ou ainda um lugar a recorrer quando o vazio amoroso prevalece -- isso sem precisar sair de casa. Há mulheres que revelam ter arrumado ali um namorado, que o romance durou até cinco anos, e voltaram com o final da relação. Há gente em busca de alguma coisa incerta e não sabida relativa ao amor, em busca de algo ora imaginário, idealizado e sonhado sobre futuros possíveis  parceiros, ora conhecido e bem definido como a diversão sexual apenas.

           Percebe-se que há casos em que fica claro o sonho do amor que supera tudo, quando mesmo a distância parece não impor limites ao encontro bem-sucedido entre duas pessoas. Mas é mesmo muito curioso saber o que alguém que mora em Picos, no Piauí, pode querer com alguém que mora em São Paulo e não pretende sair daqui? Outra questão surge quando no perfil a mulher informa ao eventual interessado que "geralmente" é fiel. Isso significa o quê? Que é fiel com todos ao mesmo tempo? Em geral... Com os homens, então, não há sobre o tema questionamentos nos formulários de construção de um perfil nesses sites. A machonaria impera ali.

          Por fim, por que algumas moças [ou meninas] gostam de postar fotos dos pés e das mãos? Não colocam imagens do rosto. Isso é o que se pode chamar de amor aos pedaços?! O desmembramento dá resultados? Suspeito até que esteja surgindo um novo tipo de mulher: a mulher lego, que não vem pronta, o pretendente pode juntar os pedaços -- orelhas, boca, olhos, tronco e membros -- como num quebra-cabeças, mesmo não seguindo um manual de instruções. Como não há qualquer garantia do fabricante, o pretendente pode ao vivo dar de cara com uma frankenstein. O que não seria propriamente uma novidade: na vida há alguma coisa com garantia ou prazo de validade muito extenso [na alegria e na tristeza, na saúde e na doença]? Todos vamos até que uma curva Tamburello nos separe.

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GAROTA MORDE SOLDADO ISRAELENSE?

Soldado atacado e mordido quando tentava deter garoto palestino que
 atirou pedra, ou mulheres palestinas tentam libertar menino detido?

       O conflito entre palestinos e israelenses sempre foi pródigo em produzir fotos, em geral mostrando a desigualdade de armamentos. Sem entrar no âmbito das motivações do confronto, todo mundo sabe que uma foto vale mais do que mil palavras. Basta lembrar a imagem da criança curda, que morreu afogada tentando ir com a família para o Canadá, uma das imagens mais impactantes da nova onda de refugiados rumo à Europa. Nos últimos dias, outra fotogafia chamou a atenção para o Oriente Médio.  Em Tel Aviv e em Jerusalém, um dos principais assuntos do noticiário é a imagem de um soldado israelense tentando deter uma criança palestina. O jornal local “Haaretz” descreveu a cena como indício de que o Exército perdeu a razão, mostrando "a face feia, louca e sem sentido da ocupação israelense". O vídeo foi gravado na última sexta-feira durante protesto semanal no vilarejo de Nabi Saleh, Cisjordânia. Algumas mulheres palestinas tentam impedir o soldado até que seu comandante dá instruções para que ele solte a criança. Segundo o “Haaretz”, o Exército afirmou que o garoto estava arremessando pedras contra o soldado. 

         As boas escolas de jornalismo ensinam que só é notícia quando um homem morde um cachorro -- nunca o contrário. No caso, há duas fotos. O tom da cobertura do caso, evidentemente, varia de acordo com o jornal. O “Haaretz”, que usou a foto de um soldado agarrado por palestinas, mantém uma posição crítica em relação ao Exército israelense. Já o popular site Ynet, por outro lado, publicou a notícia com a manchete “Garota morde soldado” e a fotografia ligeiramente diferente, de uma menina mordendo a mão do militar, que parece ser a vítima de um “protesto violento”. Em agosto, um jovem palestino que lançava pedras contra um brucutu de Israel, usado em ações antimotim, foi morto com um tiro nas costas por um soldado. É o tipo da reação defendida pela extrema-direita, para quem as regras atuais de combate do Exército “amarram as mãos dos soldados” nessas reações dos jovens palestinos em suas manifestações nas zonas ocupadas -- ocupadas, sim, para evitar o que Israel chama de "terrorismo" incentivado pelos governos locais.


O jornal israelense “Haaretz” diz:

Mas como mil testemunhas, as imagens mostram que a vida do soldado não estava em risco durante um segundo sequer. Em diversos outros casos as vidas de soldados não estavam ameaçadas, e mesmo assim eles dispararam contra atiradores de pedras. O jornal elogia a atuação do soldado, que não disparou na sexta-feira, e a de seu comandante, que ordenou a soltura do garoto. Mas, segundo o “Haaretz”, o vídeo também exige a pergunta: o que o soldado deveria ter feito? As imagens revelam que ele não sabia como agir.

O diário “Jerusalem Post” também critica o episódio:

O que ninguém parece se perguntar é a razão pela qual após 48 anos gerenciando a Cisjordânia o Exército é repetidamente enviado para lidar com crianças que atiram pedras. É estranho que recrutas, com salários entre US$ 150 e US$ 300 ao mês, tenham que ser ao mesmo tempo soldados especialistas, profissionais no controle de protestos e às vezes um tipo de funcionário social e de relações com a mídia.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

DIA SEM CARRO: PARIS DESLIGA OS MOTORES

"Av. Paulista" de Paris tomada por bicicletas: vamos ao Arco do Triunfo?
 
       Enquanto aqui gastamos tempo e saliva fazendo o debate do atraso do atraso sobre se as ciclovias e as ciclofaixas são coisas de burguês ou de pequeno burguês [e o prefeito paulistano, Haddad, vira alvo de ataques nem sempre bem fundamentados], Paris, a capital francesa, organiza a sua primeira jornada sem carro, mas em toda a cidade, A data marcada, amnhã [domingo]: 27 de setembro, dia que coincide com a Semana Europeia de Mobilidade e a Conferência do Clima COP21 das Nações Unidas.
     Paris [que já foi cidade-luz, farol do conhecimento, e tornou-se a cidade dos amantes] por pelo menos por 24 horas será a metrópole dos pedestres, ciclistas e desestressados viajantes não motorizados.  Patrocinado pelo governo da cidade, "Um dia sem carro" [Une Journée Sans Voiture”]  é um modo de desligar os motores e assim tornar as coisas um pouco mais fáceis para os parisienses e turistas, cansados do caótico trânsito, do barulho e da poluição que os automóveis provocam. A prefeita, Anne Hidalgo, anunciou o evento na primavera do ano passado através de uma foto da famosa Avenue des Champs-Élysées completamente livre de carros, A Champs-Élysées é a Paulista de Paris. As áreas que serão reservadas exclusivamente para pedestres incluem a 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, 7ª, 10ª e 11ª zonas municipais da cidade, bem como ruas ao redor da Torre Eiffel, o parque público Bois de Boulogne e Champs-Élysées. A proibição de carro só não será absoluta porque veículos do governo serão autorizados a transitar nas áreas afetadas, assim como as pessoas que vivem nesses bairros. A capital francesa tem 20 zonas municipais [as mais ricas e nobres estão no Dia Sem Carro]. A ideia é difundir a percepção de que é possível  mudar radicalmente a forma como as pessoas existem e se relacionam com a cidade.
      Apesar de um único dia não ser suficiente para reduzir as taxas de poluição global, com a iniciativa espera-se que os moradores experimentem seus arredores cotidianos sob uma nova ótica, mais calma, inspirando residentes e turistas a fazer uma alteração em suas próprias vidas, em vez dc esperar por uma cidade inteira para fazer isso por eles.
     São Paulo já participou de eventos mundiais do "Dia sem carro". Ninguém notou a diferença. Sempre houve baixíssima adesão. O paulistano, viciado nas quatro rodas, ainda enfrentou megaengarrafamentos nesses dias. Só ficou sabendo do evento pelos noticiários de TV, que reportavam o que não houve. Vamos ver como será em Paris.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

REFUGIADOS: A FACE DO HORROR HUMANO

                                                        [versão atualizada]

Menino não chegou a Kos, Grécia: foi achado em  Bodrum (Turquia)
"Se imagens como essa não quebrarem a resistência dos europeus, o que mudará?", questiona o jornal britânico 'The Independent', lembrando que, "entre as palavras muitas vezes loquazes sobre a 'crise da imigração em curso', é muito fácil esquecer a realidade da situação desesperadora enfrentada por muitos refugiados"
Pai sírio chora abraçado aos filhos, fugitivos da guerra civil:eles chegaram vivos à ilha de Kos, na costa da Grécia

Corpos de refugiados chegam à praia da Líbia: o sonho de viver na Europa morre afogado no Mar Mediterrâneo















     
         Que mundo é este? É uma tragédia sem fim, ondas de mortos na fuga para uma Europa cada vez mais xenófoba. O Mediterrâneo tornou-se um mar de sangue nos últimos três anos. A tragédia no Velho Mundo, rico e bem armado, envergonha. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU)  cerca de 2,500 imigrantes já morreram afogados neste ano tentando chegar à Grécia e à Itália, em barcos abarrotados de refugiados sírios que tentam ficar distantes da violenta guerra civil, ou de gente que foge da miséria ou do desrespeito aos direitos humanos, principalmente eritreus e afegãos. Sim, direitos humanos que governos de matizes diversos ignoram [e que no Brasil, por exemplo, virou um palavrão]. Nigerianos e ciganos do Kosovo também estão entre os resgatados vivos. Se a ONU fala em 2.500 mortes no mar, devem ser bem mais.

        Os números são impressionantes. Também segundo a ONU, mais de 300 mil tentaram atravessar o Mediterrâneo rumo ao "paraíso" europeu neste ano, até agora. Em todo o ano passado, foram 220 mil. Desde janeiro, 200 mil imigrantes chegaram à Grécia, em frágeis botes de borracha ou lona e pequenos barcos de  madeira, e outros 110 mil desembarcaram na Itália. A travessia Líbia-Itália é mais longa e arriscada. No último dia 27 de agosto [isso na segunda-feira passada, lembra], dois barcos com cerca de 500 refugiados afundaram depois de deixar Zuwara, na Líbia [foto acima]. No mesmo dia, 71 corpos, que seriam de imigrantes sírios, foram achados em um caminhão frigorífico abandonado na Áustria. Em abril, 800 pessoas morreram em naufrágio perto da ilha de Lampedusa, na Itália. Em fevereiro, 300 imigrantes morreram tentando atravessar o Mediterrâneo. Os sobreviventes relatam violência e abusos cometidos por traficantes de pessoas, já que muitos deles pagam milhares de dólares a "coiotes" e depois ainda são agredidos e roubados. Em abril, líderes da União Européia prometeram reforçar a patrulha marítima contra traficantes de gente -- esses míseros aproveitadores -- tomando e destruindo barcos antes do embarque de imigrantes ilegais. Por outro lado, essas ações militares deveriam respeitar as leis internacionais [ninguém sabe se respeitam, não há notícia do tema nos jornais; ninguém tem interesse no assunto?].

         A Alemanha, o mais rico e poderoso país da Europa, espera a chegada de 800 mil refugiados neste ano. A Áustria espera 80 mil pedidos de asilo. Milhares de imigrantes acampam em Calais, no norte da França, à espera do seu "dia D", quando na surdina arriscam cruzar clandestinamente o gélido Canal da Mancha rumo à Grã-Bretanha. A Hungria decidiu construir barreiras de 175 km de extensão para impedir a passagem por seu território de imigrantes ilegais. Só em julho 34 mil pessoas tentaram atravessar a fronteira entre a Sérvia e a Hungria. Muitos acabam presos e deportados.

        Pela Convenção de Dublin, a responsabilidade de examinar pedidos de asilo é do primeiro país em que o imigrante pôs o pé. A falida Grécia reclama ter recebido uma avalanche de pedidos de asilo, já que muitos dos imigrantes atingem seu território primeiro. Os 28 países da União Européia não conseguem chegar a um acordo sobre uma política da asilo. Cada país tem sua polícia e aplica a sua justiça. O sistema de cotas foi rejeitado. A crise econômica aumenta a xenofobia e reduz a aceitação dos imigrantes pobres. Solidariedade, o que é isso? [nem da esquerda caviar] Muitos europeus estão desempregados e temem a concorrência com os trabalhadores estrangeiros, embora o continente não tenha mão-de-obra suficiente para determinados tipos de trabalho, teoricamente mais desqualificados. Para piorar o ambiente, há suspeita de que o grupo extremista Estado Islâmico tem infiltrado nos barcos militantes para cometerem atentados, uma vez que é dífícil à polícia européia saber quem é guerrilheiro islâmico e quem é apenas um refugiado. E por isso países ricos tiram recursos para atender os acordos internacionais, o que evitaria uma tragédia ainda maior, e assim reduzem a possibilidade de resgates de gente viva. É como se dissessem, "que morram", "o problema não é meu". Os americanos e russos que financiam [ou apóiam com armas] parte dessas guerras assistem a tudo calados.
     
Comércio em Izmir, na costa turca, vende bóias e coletes a imigrantes

       
Antes, a pequena Izmir, na Turquia, recebia dezenas de turistas atraídos pelas ruínas ancestrais e pela beleza da costa no Mar Egeu. Agora recebe milhares de refugiados e virou uma das principais bases de tráfico humano da Europa, sob o olhar displicente do governo local. No centro histórico, segundo a BBC, as ruas estão lotadas de famílias sírias e iraquianas, que vivem em calçadas com crianças e bebês esperando "barcos" para a Grécia. A demanda é enorme tanto quanto o risco de embarcar em botes de lona: a maioria não sabe nadar, sequer boiar. As lojas da cidade [sim, o comércio formal] agora vendem até 150 coletes salva-vidas por dia. Um grupo de  imigrantes ilegais que havia escapado de Raqqa, no norte da Síria, onde o grupo radical Estado Islâmico tem sua base, dizia, segundo a BBC, que é melhor tentar a liberdade do que viver sob o domínio do Estado Islâmico. "Em Raqqa, a vida não é sua, é deles. Você tem que obedecer ou morre. Lá você sente a morte de perto", disse um refugiado.

       Muitos sobreviventes de tentativas frustradas reduzem a vida pertences básicos como celular, passaporte e dinheiro. Mas como vai proteger essas coisas diante da possibilidade de nadar por horas no mar? Um comércio inusitado apareceu. Homens vendem balões coloridos vazios. Esses balões, dizem eles, se expandem e podem segurar até celulares maiores. E mais; eles são à prova de água, dizem, assegurando que o telefone estará funcionando quando chegar à Grécia. Será? Você quer amarelo, vermelho ou rosa? A cor ajudaria a identificar o aparelho se você perdê-lo de vista no mar. Será? Você acreditaria? Muita gente acredita... A humanidade parece mesmo inviável. E assim caminha o século 21.


Botes de lona para 20 pessoas levam 40, 50, até 60

Leia mais sobre o banho de sangue no Mediterrâneo

HÁ UM IMIGRANTE DENTRO DA MALA

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